O Homem em Equilíbrio (1948)*

Siegfried Giedion


A humanidade nunca possuiu muitos instrumentos para abolir o trabalho escravo. As promessas de uma vida melhor todavia não tem sido mantidas. Tudo o que temos para mostrar é nossa incapacidade de organizar não apenas nosso mundo mas a nós mesmos.

O controle sobre nosso ambiente cada vez mais mecanizado exige que tudo fique subordinado às necessidades do homem - às necessidades humanas. A mecanização é uma agência para tanto - como a água, o fogo, ou a luz. Ocorre que ela é cega e sem direção própria. Como as forças naturais, o valor da mecanização para o homem depende de sua capacidade de usá-la ao máximo, enquanto simultaneamente se protege contra seus perigos inerentes. Mas porque a mecanização originou-se totalmente da mente do homem, ela é mais perigosa e menos facilmente controlada do que as forças naturais: ela reage nos sentidos e na mente de seu criador. Desde o primeiro momento, estava claro que a mecanização envolvia uma divisão do trabalho. Isso prosseguiu até o ponto em que, agora, está cada vez mais difícil para o homem controlar toda a situação surgida. Quando seu carro estraga, o proprietário raramente sabe que parte da máquina está causando o problema; um elevador trancado pode paralisar a vida em Nova York. O indivíduo tornou-se cada vez mais dependente de uma produção em grande escala e do funcionamento da sociedade como um todo, e os relacionamentos são mais complexos e interdependentes do que no período anterior.

Uma das razões de por que o homem contemporâneo é dominado pelos meios é porque seu poder de integração [social] atrofiou sob as pressões da aproximação fragmentadora e especializada do século XIX. Somente recentemente se tornou possível notar uma reconstrução gradual do uso de conceitos universais como a base para a pesquisa científica.

Para funcionar, o organismo humano requer uma temperatura específica, uma situação específica de clima, ar, luz, umidade, e alimentação. Para preservar seu corpo em equilíbrio, o homem precisa de contato com a terra e com coisas que crescem. Para isso, o corpo humano é sujeito às leis da vida animal.

O organismo humano pode ser considerado como uma constante. Por outro lado, as relações entre o homem e o ambiente estão sujeitas à mudança constante. De geração para geração, de ano para ano, de instante para instante, elas estão em perigo contínuo de perder seu equilíbrio. Não pode haver um equilíbrio estático entre o homem e o seu ambiente, entre seu interior e sua realidade exterior. Por isso, nós não podemos nos entregar de forma alguma aos processos de ação e reação. Nós podemos somente experimentar as formas em que se cristalizam. As diferentes criações dos romanos, do homem medieval e do período barroco, por exemplo, demonstram as perpétuas relações de mudança entre a natureza interna do homem e seu mundo exterior.

Nenhum círculo fechado e nenhuma tendência padrão repetitiva existem para definir as constantes relações de ajuste do homem e do ambiente. Elas evoluem em curvas, nunca se duplicando.

Nossa época exige um tipo de homem que possa recriar um equilíbrio entre seu interior e sua realidade externa, que possa recuperar o controle sobre sua própria existência, equilibrando forças freqüentemente consideradas como irreconciliáveis. Este equilíbrio não pode ser estático. Deveria ser envolvido em mudança contínua, procedendo-se - como faz um dançarino de corda bamba - a uma série de pequenos ajustes capazes de manter um contrapeso entre nós e o espaço vazio: seria o homem em equilíbrio.

Para alcançar este equilíbrio, o homem deve estabelecer um contrapeso em quatro campos principais:

1. Entre sua vida privada e sua vida comunitária. O homem deve discriminar entre o domínio reservado para a vida privada e as áreas da vida coletiva. Como nossa civilização deseja tão pouco um individualismo extremo ou uma esmagadora coletividade, o homem deve estabelecer um contrapeso entre os direitos do indivíduo e os direitos da comunidade. Hoje em dia existe não só uma falta de forma como também de conteúdo [nessa relação].

2. Entre seu método de pensar e seu método de sentir. O abismo do século XIX entre o pensar racional e a expressão emocional resultou na ascensão de uma personalidade dividida. Devemos recuperar o equilíbrio entre a razão e a emoção, entre a tradição e o desconhecido, entre a repetição do passado e a exploração do futuro, entre o temporal e o eterno.

3. Entre os diferentes campos do conhecimento. A abordagem do especialista, hoje, deve ser integrada com a perspectiva universal. Todas as novas descobertas e o seu desenvolvimento devem ser relacionadas com suas devidas implicações sociais.

4. Entre o corpo humano e as forças naturais. O organismo humano exige um contrapeso entre o ambiente orgânico e seus arredores artificiais. Totalmente separado da terra e dos processos naturais do crescimento, o homem nunca conseguirá alcançar o equilíbrio necessário para a [boa condução da] vida contemporânea.

Está na hora de tornarmo-nos humanos outra vez e deixar a medida humana governar todos os nossos projetos. O homem em equilíbrio que deve surgir é novo apenas em contraste com o de um período distorcido. Nele se expressam as demandas de uma época antiga e que devem ser satisfeitas nas condições de nossa época atual, se é para nossa civilização prevalecer.

A história não produz tendências repetidas. A vida de uma cultura é limitada ao tempo, exatamente como é a vida de um indivíduo. Tudo depende de o que é realizado dentro de um prazo determinado.

Tradução de Simone Link. Revisão de Francisco Rüdiger.

* "Man in equipoise". Publicado em Ekistics, no. 151. Notas extraídas com poucas diferenças de "Mecanização no Comando" ("Mechanization Takes Command").






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