Cibercultura on line
Contribuições à crítica da razão tecnológica


Vol. 8 - 2003

Clássicos da Filosofia da Técnica I


Apresentação

por Barbara Nickel*


A primeira metade do século XX, um período marcado por duas Guerras Mundiais, foi também a ocasião em que a humanidade pôde colocar em nova perspectiva a reflexão acerca da técnica. A euforia do final do século XIX se esvai frente às visões do horror da morte em massa, mas a morte não é o único evento assustador. Trágica é, essencialmente, a vida mecanizada; a vida aniquilada pelos ideais de produtividade, racionalização, utilitarismo, progresso.

Se, já desde antes dessa época, a literatura ficcional e as artes são campos em que florescem relatos e alertas à empobrecida situação do homem ocidental moderno, a filosofia da técnica também nos oferece reflexões valiosas. Os textos aqui reunidos, elaborados por volta dos anos 1940, são exemplos de um pensamento crítico que percebe o quão desastroso pode se tornar um projeto que pretende transpor um ideal de perfeição característico do pensamento mecânico para a esfera humana.

O pensamento de Friedrich-Georg Jünger (1898-1977) é contundente e radical. Poeta e ensaísta, irmão do escritor Ernst Jünger, concluiu o livro Die Perfektion der Technik supostamente em 1939. Conta-se que duas versões pré-impressas da obra foram destruídas em bombardeios durante a II Guerra, uma em 1942 e outra em 1944, adiando sua publicação para 1953. Jünger vê o homem moderno como um usurpador da natureza, cujo único objetivo é dominá-la completamente. Este homem, incapaz de refletir sobre suas ações, sequer percebe que pode estar forjando a própria destruição. O anseio de Jünger seria por uma reconciliação entre homem e natureza, homem e imaginação, homem e afetividade, mas, desiludido, sabe que o pensamento mecânico vigente não deixa espaço para tais esperanças.

Arnold Gehlen (1904-1976) é um pensador de grande influência dentro da Filosofia e das Ciências Sociais. Tem seguidores mesmo entre aqueles radicalmente opostos à sua posição política conservadora. O capítulo aqui traduzido encontra-se na nova edição do livro Man in the Age of Technology, publicado pela primeira vez em 1949, sob o titulo o Sozialpsychologische Probleme in der industriellen Gesellschaft. A nova edição, revisada, saiu em 1957, dessa vez com o nome Die Seele im technischen Seitalter. O autor empreende uma reflexão sobre a técnica moderna a partir de pontos de vista sociais, filosóficos e psicológicos. Para ele, o fenômeno da industrialização em curso pode afetar o homem de maneiras nunca antes vistas. Sugere, portanto, colocar em questão e investigar seriamente o problema, fundamental, do racionalismo.

O historiador de arte Siegfried Giedion (1888-1968) encontra repercussão principalmente com seus textos acerca da arquitetura moderna. Até mesmo o Brasil serve de objeto de análise para esse pensador, que escreve um artigo intitulado Brazil and the Contemporary Architecture. Em Homem em Equilíbrio, publicado em 1948 dentro da obra Mechanization Takes Command, ele parte de uma perspectiva de análise que envolve a relação do homem com o seu ambiente para refletir sobre a sua situação na configuração da realidade moderna. Também aqui nos deparamos com um alerta para a importância do reencontro do homem com a sua totalidade.

Neste volume, encontram-se traduções de autores não muito explorados nos debates em língua portuguesa e que, porém, mostram-se de fundamental importância àqueles interessados na história do pensamento da técnica e da critica à modernidade. Podemos descobrir, com eles, a percepção mais antiga de uma inquietação com o destino a que chegaria a humanidade na concretização de todas as aspirações do ideal prometeico do homem ocidental moderno. E, mais ainda, apoiarmo-nos em suas reflexões para avaliar o quão longe estamos, na nossa vida contemporânea, da existência mecanizada, cuja possibilidade apresentava-se aos pensadores germânicos tão perturbadora no início do século passado.

* Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul





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