Comunidade e Identidade na "Aldeia Eletrônica"

Derek Foster


A Internet é claramente a principal entre as novas tecnologias de informação a prometer impactar significativamente as circunstâncias cotidianas de todas as relações sociais. A Internet é um exemplo real de uma rede de computadores ampla e extensa, que permite a cada usuário ter igual voz ou, pelo menos, a mesma chance de falar. Descobrindo-a, um número crescente de pessoas se encanta com sua capacidade tecnológica de divulgar legitimamente suas próprias expressões individuais, tanto quanto pela liberdade que ela fornece em relação às tradicionais barreiras de tempo e espaço. Questão central a seu respeito é se, como se costuma afirmar, esse poder e a capacidade de entrar cada vez mais facilmente em contato com um número sempre crescente de pessoas com afinidade de pensamento fortalecem o sentimento de comunidade.

Obviamente, comunicação e comunidade são expressões que possuem uma linhagem comum. "Comunicação vem do latim communis (comum) ou communicare (estabelecer uma comunidade ou uma 'comunalidade')" (Merill & Lowenstein 1979, 5). Apesar da comunicação servir de base ao conceito de comunidade, todavia não dever ser equiparada a ele. Um indivíduo pode se comunicar com outro sem considerá-lo um membro de sua própria comunidade. Com isso, atinge-se a principal questão deste ensaio: até que ponto pode-se dizer que a Internet facilita a formação de "comunidades"?

A Internet, para nossos propósitos, é o que fornece uma infra-estrutura tecnológica para comunicações mediadas por computadores (CMC) através do tempo e espaço. O espaço conceitual em que esta comunicação ocorre será referido como ciberespaço, um ambiente em que a comunicação face-a-face é impossível. Através dele, porém, surge uma forma de co-presença virtual, resultante das interações eletrônicas entre os indivíduos, que não se restringe aos tradicionais limites de tempo e espaço: esta é a base do que é geralmente referido como "comunidade virtual".

Howard Rheingold define estas comunidades virtuais como "as agregações sociais, que emergem da rede quando pessoas em número o suficiente levam estas discussões públicas longe o suficiente, com suficiente sentimento humano, para formar redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço" (Rheingold 1993, 5). É esta visão sobre a Internet que eu proponho interrogar neste texto. Qualquer sentimento de comunidade encontrado na Internet, eu defendo, precisa ser necessariamente virtual, mas pode não ser suficientemente comunitário. Rheingold atribui sentido social aos encontros ciberespaciais e nos mostra como uma dialética individual flui sem problemas a partir do coletivo. Questiono o grau em que a idéia tradicional de comunidade está de fato presente nas "comunidades virtuais". Quanto mais pessoas forem atraídas para os novos meios de comunicação, mudanças concomitantes no conceito de comunidade e identidade vão emergir inevitavelmente.

A natureza "virtual" das comunidades virtuais deveria nos prevenir em relação a fazer qualquer caracterização simples de suas existência. Os observadores dessa forma de comunicação costumam associar o termo com os próprios titulares de atos comunicativos. Destarte, freqüentemente ouve-se falar de uma forma particular de comunidade é associada aos MUDs (multi-user dungeons) ou mesmo a grupos de discussão da Usenet. Outros, porém, escolheram uma abordagem diferente. Kumiko Aoki, por exemplo, dividiu o estudo de comunidades virtuais em três agrupamentos: 1) aqueles que coincidem totalmente com as comunidades físicas; 2) aqueles que coincidem com comunidades reais em algum grau; e 3) aqueles que são totalmente separadas das comunidades físicas (Aoki, 1994). Cada uma destas abordagens tem seus méritos. Para nossos propósitos, entretanto, as comunidades virtuais não são necessariamente produtos de um meio particular de estruturar a comunicação, nem mesmo aquelas explicitamente organizadas em relação com um espaço físico. Pelo contrário, enquanto "corpos" ou "ocupantes" do espaço conceitual as "comunidades virtuais" devem ser reconhecidas como construtos ideais.

Imagined Communities, de Benedict Anderson, é, nesse sentido, elucidativo: "Todas as comunidades maiores do que as aldeias primitivas, de contato face-a-face (e talvez até estas), são imaginadas. Comunidades devem ser distinguidas, não por sua falsidade ou genuinidade, mas pela forma em que são imaginadas" (Anderson, 1983, 6). O contexto das comunicações por computador necessariamente enfatiza o ato de imaginação que é necessário para criar a imagem de comunhão com outros que, geralmente, não tem rosto, são momentâneos, ou anônimos. Questionar-se sobre os aspectos sócio-psicológicos dessa espécie de comunicação é de fundamental importância. As questões a seu respeito nos permitem colocar as referidas "agregações sociais" de Rheingold em perspectiva e perguntar em que grau estas podem ser vistas como expressões públicas ou privadas.

"Comunidade" é termo amplamente utilizado para se referir a um tipo ideal de relações sociais conhecido como Gemeinschaft e cujo embrião se acha nas relações individuais de parentesco. (Töennies 1957, 37). Definido sucintamente, o termo engloba um conjunto de relações voluntárias, sociais e recíprocas, que estão unidas por um imutável "sentimento de de ser um nós". Gemeinschefat contrasta tipicamente com a Gesellschaft, ou associção impessoal. A Gesellschaft é geralmente é referida em relação ao sentimento utilitarista que caracteriza a vida moderna, industrial e urbana. A comunidade, ao invés, pressupõe a solidariedade entre todos aqueles que a integram: é uma entidade que é vista como "resultado do compromisso, envolvimento, responsabilidade e respeito mútuos entre a sociedade e seus membros" (Walls 1993, 156).

Destarte, a comunidade é construída por um fluxo de informação suficiente e significativo de "nós". Este "nós", ou a identidade coletiva dele resultante, estrutura-se em volta de "eus" que se vêem como semelhantes. Neste sentido, a comunidade, como qualquer forma de comunicação, não é inteiramente compreendida sem a idéia de "eu". Essencialmente, isso implica que "o que é necessário para a formação do indivíduo é uma organização de atitudes comum própria a um grupo. Uma pessoa é uma personalidade porque ela pertence a uma comunidade" (Mead 1993, 158). Reflete-se nesta perspectiva a tradição agostiniana de interioridade, segundo a qual "a identidade mais profunda de uma pessoa é aquela que une a pessoa a seus companheiros humanos: há algo comum em todos os homens, e ter contato com este elemento comum é ter contato com o seu verdadeiro eu"(Rorty 1991, 196).

Obviamente, assim como a autodefinição individual motiva nossas relações com os outros, ela também estrutura nossas comunidades: a maneira como se organiza o eu fundamenta o cada esforço comunicativo. Então, torna-se muito pertinente a questão em saber como as comunicação por computador afeta a organização do indivíduo. As comunidades virtuais podem ser vista de maneira mais adequada como formas que se estruturam em volta da identidade pessoal ou da identidade da comunidade? Gostaríamos de crer que a segunda alternativa é a correta: que na criação da solidariedade, que atribuímos a Gemeinschaft, nós nos tornamos mais sensíveis para com a situação alheia. A procura de comunidade torna mais difícil marginalizar as pessoas diferentes de nós. Em contrapartida, a comunicação por computador pode libertar os indivíduos do jugo das coações tradicionais devido ao acesso à informação; projetos individuais e campos específicos de interesse podem ser objetivas de maneira mais fácil através de focalizações cada vez mais estreitas. Neste contexto, busca-se o eu, mas não, como se pensa, na completa ignorância a respeito do outro. Apenas o outro é relegado a condição de substrato do eu, do si-mesmo. "Então, o sujeito empenhado entra em conversação apenas com a finalidade de firmar a si mesmo de forma verdadeira. A pessoa se relaciona consigo mesma, mesmo quando parece estar se relacionando com os outros" (Taylor, 1991,17).

Parece-nos que este é um perigo particular da comunicação via computadores. O solipsismo, a preocupação extremada e tolerante de uma pessoa com as suas próprias inclinações, é potencialmente engendrado nessa tecnologia. Ocorre uma reificação do espaço privado, quando a visão a respeito do mundo própria de uma pessoa age como uma redoma protetora contra a violenta do admirável mundo novo da informação. Trata-se de uma noção na qual o outro ainda existe. A importância de nossas relações com outros para a afirmação de nossa auto-identidade jamais cessa, porque "a autoconsciência pressupõe o reconhecimento de si próprio na pessoa do outro"(Taylor 1991, 18). Contudo, quando o privado se torna mais abrangente e a imagem de mundo própria de uma pessoa se torna mais fortalecida, pode-se perder a visão do outro.

Além disso, a interface homem/computador mesma obscurece o palco em que os indivíduos contracenam: "O 'conteúdo' de um meio de comunicação pode ser comparado ao pedaço de carne suculento que o ladrão leva para distrair, no caso, o cão de guarda da mente"(McLuhan 1964,32). A conectividade que as comunidades virtuais formadas via computador nos confere esconde do observador o real caráter da tecnologia - seus usuários existem como indivíduos que projetam seus eus através da rede de computadores, mas isolados pela mediação do tubo de raios catódicos e do teclado. Disso não se deveria extrair conclusões tais como a de que as comunidades virtuais são abrigos de condutas anti-sociais. Nem inferir que as comunidades virtuais atraem pessoas alienadas, ou fomentam um estado geral de anonimato. A última situação se aplicaria às condições em que "a maior parte das pessoas não mais crê que está chegando a lugar algum em relação ao que deseja" (Clinard 1964, 5). O fato dos indivíduos estarem procurando comunicar sua visão de eu publicamente é prova em contrário. O eu não é tudo o que existe. A auto-absorção egoísta, conforme a comunicação via computador pode encorajar, contudo incorpora uma situação em que "o outro não é realmente outro, mas, na verdade, apenas um momento no meu próprio processo de via-a-ser (Taylor 1991, 17).

Nesta situação, o sujeito mediado pelas redes, embora consciente, carece da devida autoconsciência.

Assim, as comunicações via computador revelam um potencial capaz de reificar a identidade pessoal e a da comunidade, e fazer a distinção entre as duas pode até ser redundante. Em um trabalho pioneiro no campo da teoria psicanalítica da comunicação, observou-se que a comunicação sempre envolve uma dialética entre tendências centrífugas e centrípetas inconscientes relativamente à auto-expressão (Spitz, 1957). As comunicações em foco ampliam esta capacidade de forma a, simultaneamente, expressar o "eu" e o "outro", o indivíduo e a comunidade.

Enfocando o assunto de outro ponto de vista, pode-se dizer que esta dialética envolve uma "oscilação contínua entre abertura relativa e fechamento - uma forma flexível de ajustar a entrada de informação ou mudança de entropia" (Klapp 1978, 17). As formas positivas de abertura incorporam os dogmas da solidariedade conforme os entendem o liberalismo: os indivíduos expressivos e bem informados se beneficiam mutuamente do cruzamento de seus conhecimentos. Assim como existem más formas de abertura - quando procede-se à comunicação de forma indiscriminada e sem direção - também existem, porém, as boas formas de fechamento. Tratam-se das formas que envolvem a habilidade dos "cidadãos virtuais" (net.denizen) em exercer um auto-controle, em lograrem ser discriminadores e seletivos frente a tanta informação. Por outro lado, também ainda a possibilidade do mau fechamento, quando o indivíduo se torna insulado, intolerante e isolado.

Baudrillard tem uma visão única a respeito desta forma de mente fechada, quando afirma que, assim, "todo indivíduo se vê promovido ao controle de uma máquina hipotética, isolado em uma posição de perfeita soberania"(Baudrillard 1988, 15). As comunicação por computador oferecem, de fato, uma forma deste êxtase de comunicação. A capacidade recém descoberta de se comunicar com um grande número de pessoas com afinidade de pensamento, apesar das barreiras de tempo e espaço, encobre aí uma "encefalização eletrônica" de nós mesmo às custas dos outros (Baudrillard 1988, 17).

Tentei até agora iluminar um pouco do conflito entre os conceitos de comunidade e individualidade e dissuadir o leitor de fazer quaisquer suposições fáceis sobre qual dos dois necessariamente se coaduna com a apresentação pública dos nossos eus privados. Sendo possível tirar alguma conclusão, provavelmente seria a de que é artificial o "sentimento de sermos um nós" resultante das comunicações via computador e sob condições de não-presença. Em geral, é muito fácil á pessoa, neste caso, ignorar as diferenças e atribuir sua própria imagem ao outro, ao invés de definir sua imagem com referência a esse outro. Quando a imagem do eu comunitário de uma pessoa é, todavia, distorcida, qualquer esperança de relação verdadeira no estilo Gemeinschaft está de fato perdida.

Partindo desse ponto, examinaremos em maior profundidade as ramificações sociais dessa forma de comunicação, deixando em segundo plano seus efeitos psicológicos individuais, que tiveram maior ênfase até agora. Deixaremos de lado a ênfase na privatização do público sob um viés psicológico, visando comentá-la como um fenômeno social. Como disse Baudrillard, "o corpo como um cenário, a paisagem como um cenário e o tempo como um cenário estão lentamente desaparecendo. Isso também vale para o espaço público" (Baudrillard 1988, 19).

Acontece o que com o espaço público, quando esse é confrontado com um espaço de conexão enorme e efêmero ? Para responder, recorremos agora à noção de esfera pública de Habermas:

"Por esfera pública entendemos sobretudo um terreno de nossa vida social onde algo semelhante a uma opinião pública pode ser formado. O acesso é garantido a todos os cidadãos e partes dessa esfera se criam em cada conversa onde indivíduos privados se reúnem para formar um corpo público." (Habermas 1989, 136)

Habermas projeta sua definição de opinião pública no plano da discussão informada e da argumento racional. Ao fazer isso, presume que os membros da esfera pública estão aptos a pensar racionalmente por eles mesmos, a organizar suas próprias relações e a desenvolver opiniões críticas independentes. Destarte, porém, a esfera pública é empobrecida sempre que há remoção do discurso público. A elevação do privado é algo que ocorre às custas do público e da capacidade de se chegar a uma opinião pública. A conseqüência é uma redução das possibilidades de se criar relações no estilo Gemeinschaft, se as reconhecermos como originárias dos discursos que trocam os membros autoconscientes de uma comunidade.

A garantia de acesso para todos é um importante aspecto da esfera pública. Pensando no público como uma forma de vida compartilhada comunitariamente, chega-se á conclusão de que o ideal desta divisão só pode ser obtido através da ação comunicativa - a capacidade dos indivíduos se envolverem em discursos públicos substantivos. Nesse caso, a esfera pública pode ser vista como uma espécie de faça ideal da comunidade, impossível de ser obtida se indivíduos forem excluídos do discurso público.

Tentando averiguar a relevância das comunicações via computador, Garth Graham (1995) afirmou que, nela, o acesso universal inclui a liberdade de se comunicar. A interatividade tem a ver aí com as conexões humanas, tem a ver com conversação, serve para comunidades e indivíduos, não para audiências massificadas.

Tal visão de Graham é útil, porque sua noção de comunidade transcende a daquela formada pelo simples acesso aos meios de comunicar. Também inclui a afirmação da opinião pública, a eliminação dos privilégios, e a discussão e a ação das normas costumes existentes. Sua visão de comunidade eletrônica é, ao mesmo tempo, igualitária e descentralizada. Para ele, não se deve deixar o primeiro elemento obscurecer o segundo, porque uma vez obtido algo que se assemelhe ao acesso universal, estaremos enganados pensando que obtivemos também a formação de uma opinião pública, ou do Geist da Gemeinschaft.

O espírito de comunidade é algo essencial à vitalidade das comunidades virtuais. Aquilo que mantém intacta uma comunidade virtual é o critério subjetivo do "estar-junto", um sentimento de conectividade que confere um sentimento de pertencimento aos indivíduos. As comunidades virtuais são pois algo que requer muito mais que o mero ato de se conectar. "Parece que a chave para a formação de uma comunidade virtual é a interação humana que os computadores e o espaço para eles designado pelo grupo fomentam" (Lapachet, 1995a).

A qualidade desta interação, contudo, deve ser questionada, especialmente à luz dos argumentos anteriores sobre a invasão do privado sobre o público facilitada pela transformação do espaço social induzida pelas comunicações via computadores.

Recapitular brevemente uma tentativa pioneira de criar uma forma de comunidade virtual pode nos ajudar a ilustrar o ponto. A Rede Eletrônica Pública de Santa Mônica (PEN) foi uma tentativa de estabelecer uma comunidade online, mas uma cujo sentimento de comunidade, visto bem, nunca foi tão agudo que lhe permitisse ser chamada de comunidade online. Os objetivos da mesma incluíam o que esperamos encontrar nas comunidades virtuais: um novo tipo de espaço de encontro público, onde todas as vozes são iguais, qualquer um pode falar a qualquer momento, e nenhum pode ser silenciado. Projetados para suprir as necessidades locais da comunidade geográfica existente, os sistemas de comunicação interativa e de informação pública foram fornecidos através de uma rede de computador. PEN representou, nesse sentido, "uma rede de computação comunitária [que] tentou integrar-se na comunidade real a que servia" (Cisler, 1993).

Certamente ela forneceu acesso aos meios de comunicação. Embora apenas 64 pessoas podiam usar o sistema ao mesmo tempo, existiam mais de 20 terminais públicos localizados em bibliotecas, centros comunitários, asilos e prédios municipais (Valey 1991, 44). O sonho era que um "diálogo entre cidadãos, entre cidadãos e políticos, entre cidadãos e servidores públicos [pudesse] ser realizado utilizando-se esse tipo de rede e com menos dependência aos fatores tempo e espaço" (Alexander 1991, 5). Originalmente, muitos acreditavam que um sistema como este era um passo suficiente para o revigoramento da Gemeinschaft: "Se os cidadãos puderem ao menos se comunicar mais, a discussão finalmente se encaminhará para um consenso" (Dutton & Guthrie, citado em Alexander 1991, 7).

Contudo, como deve ser óbvio agora, a comunicação sozinha não constitui uma comunidade. De fato, existem poucas evidências, se é que existiu alguma, de qualquer coisa que se aproxime de um consenso atingido via esse tipo de experiência. Depois de dois anos de operação, apenas dois porcento da população de Santa Mônica usavam o sistema (Alexander 1991, 10). Alguns chegaram a reclamar que a rede não era "nada mais que um brinquedo de alta tecnologia, mantido vivo por entusiastas de computadores que não têm nada melhor para fazer" (Varley 1991, 44). A PEN também foi prejudicada pela falta de envolvimento das autoridades escolhidas para administrá-la. Estas compreendiam uma parte fundamental do todo para quem a PEN foi planejada. Acabou ocorrendo que ela se tornou "objeto das metas competitivas de uma variedade de atores, incluindo grupos de interesse, vereadores, cidadãos e a equipe da prefeitura. Cada um dos atores visava objetivos diferentes" (Alexander 1991, 10).

Desta forma, o diálogo que deveria acontecer entre os diferentes jogadores, como de costume, converteu-se em um monólogo. Podemos ver, assim, como a pluralidade pública dos espaços privados que a comunicação via computador facilita se evidencia mesmo num ambiente comunitário do ciberespaço. Os diferentes jogos que cada grupo trouxe para a rede em foco encorajaram a construção de "ciberespaços múltiplos", mesmo que dentro de um só espaço urbano (Santa Mônica). Vendo através das lentes do modelo da "presença social" para a comunicação eletrônica (Short et al. 1967, 65), constatamos que há uma pluralidade de espaços onde quer que ela, e não apenas no nível etéreo da chamada aldeia global:

"Estes ciberespaços não serão todos iguais, e não serão todos abertos para o público geral. [Qualquer] rede é sempre uma plataforma conectada para a conexão de diversas comunidades, mas ela mesma é apenas uma comunidade muito heterogênea." (Progress & Freedom Foundation, 1994)

A Gemeischaft (comunidade) obviamente torna qualquer rede mais atrativa do que aquelas que apenas fornecem acesso à informação ilimitada. Tal aspecto de uma rede implica, porém, que a conversa com os outros possa moldar a cultura e a sociologia do espaço conceitual onde vive o interlocutor eletrônico. Como o caso da PEN demonstra, no entanto, "as comunidades virtuais não são aldeias eletrônicas... muitas comunidades virtuais podem freqüentemente ajudar a criar uma aldeia eletrônica, mas comunidades virtuais seriam mais voltadas para a comunicação e para as pessoas, enquanto as aldeias eletrônicas são mais voltadas para o hardware e a conexão" (Lapachet, 1995b).

Inclusive nestas aldeias eletrônicas existem formas muito peculiares de comunidade. Observando-as, deve-se perguntar se o problema está na tecnologia ou no uso que indivíduos fazem da tecnologia. A tecnologia pode ser considerada a raiz do problema, se as comunidades virtuais forem consideradas uma forma de espetáculo pós-moderno - ao levar as pessoas para dentro de casa e faze-las pensar que as comunidades virtuais são verdadeiras comunidades. Crenças como essa todavia ocultam o fato de que toda realidade é essencialmente uma questão de percepção e de que isso inclui o grau em que associamos aspectos de nossa vida diária com um sentimento de pertencer a uma comunidade.

Por outro lado, também não é totalmente apropriado negar o elemento individual. De qualquer forma, as comunidades virtuais oferecem um meio onde os indivíduos podem buscar uma nova forma de comunidade, ao invés de apenas refugar as existentes. Baudrillard segue em ponto de vista, quando "vê a comunicação eletrônica como parte de uma ilusão hiper-realista na qual nos tornamos prisioneiros no curso de nossa fuga tecnologicamente simulada das ruínas das comunidades humanas" (Rheingold 1993, 225).

As comunidades virtuais podem ser encaixadas no hiper-real, se admitirmos que, embora carecendo de suas características fundamentais, elas oferecem a aparência de uma comunidade. Freqüentemente se ouvem vozes lamentando a perda das formas tradicionais de comunidade no discurso sobre as comunidades virtuais. Uma das queixas mais populares é a de que "não resta mais lugar onde as pessoas possam discutir as realidades que lhes importam, porque elas não podem mais se libertar de forma duradoura da presença esmagadora do discurso midiático e das várias formas organizadas de retransmiti-lo" (Debord em Rheingold 1993, 298). Muito desta retórica remete a The Great Good Place, de Ray Oldenburg, um trabalho preocupado com a perda do lugar e a fragmentação do tecido social na vida americana moderna. "Deixando de lado as oferecidas pela família, pelo trabalho e pelo consumismo passivo, é pequena e está se reduzindo a estrutura das experiências compartilhadas", escreve Oldenburg. Conforme escreve Rheingold, "a experiência essencial da vida em grupo está sendo substituída pela autoconsciência exagerada dos indivíduos" (Rheingold 1991, 25).

Aqueles que trombeteiam a capacidade de mudança das comunidades virtuais as vêem como espaços de uma vida pública informal revigorada. No entanto, acreditando haver algum mérito no questionamento sócio-psicológico das comunidades virtuais por nós conduzido, não se chega tão docemente a essa conclusão. Os fatores que fazem a comunicação via computador tão atrativa para as pessoas, sua capacidade em nos fazer brincar com a identidade, o anonimato e o distanciamento de tempo e espaço, são os que, nela, impedem a ascensão necessária do Gemeinschaft sobre o Gesellschaft . As comunicações via computadores medeiam nossas interações de forma que nossos eus ciberespaciais sejam muito mais uma extensão de nossos eus do que uma representação de nosso modo de ser autoconsciente. Para sermos autoconscientes, precisamos dar importância ao outro, e não há motivos para acreditar que isso é mais fácil em um ambiente comunicativo claramente "de muitos para muitos" do que isso o era nas condições anteriormente existentes de comunicação. As pessoas "querem explorar do seu jeito o espaço social que as envolve" (Debord 1977, 24): isso é muito mais fácil de ser logrado nas condições de uma introspecção egoísta. Neste caso, as situações de convivência informal que se apresentam não pouco podem fazer para aprofundar uma visão mais comunitária. Ao contrário, a natureza mediada e necessariamente não presente das comunicações via computador pode mesmo promover o estado solipsístico da consciência lamentado por Oldenburg.

Nesse enfoque, parte-se da idéia de que, quando indivíduos mudam-se para novos lugares, eles aprendem novas coisas a respeito de si mesmos com algum ceticismo. Garth Graham (1995) afirma que isso ocorre nos estranhos lugares do ciberespaço - as pessoas optam por entrar e sair de muitas comunidades, com muitas normas e valores diferentes. Integrar cada uma destas comunidades requer que o indivíduo faça ajustes pessoais. Destarte, ao invés de simplesmente aceitar que a adaptação cultural é benéfica, a pessoa pode preferir ficar circulando por espaços que não lhe pareçam tão estranhos, engajando-se em um processo de pura e simples auto-legitimação. Para reduzir a dissonância cognitiva, as pessoas envolvidos em experiências de aprendizado potencial tendem a se comprometer apenas com uma exposição seletiva individualizada.

A exposição seletiva provavelmente é, com efeito, o mecanismo heurístico ou atalho mental mais comum que os indivíduos usam para simplificar o processamento de informação que recebem do mundo. Costuma-se usá-la para criar um ambiente de informações de apoio, enquanto persegue-se uma orientação concordante com nossas atuais visões de mundo. Faltam motivos para crer que as pessoas agiriam diferentemente do usual quando se confrontam com as informações do ciberespaço. A natureza desta informação, que freqüentemente aparece fora de contexto, pode fazer o processo de criação do balanço cognitivo ainda mais fácil. Para criar esse balanço, em termos típicos, ou se ignora a informação que é contraditória em relação ao que já é sabido, ou de alguma forma se adapta a informação recebida de forma a se encaixar em nosso corpo de conhecimentos.

Surpreende que, suplantando sua primeira caracterização de comunidade online, Graham (1995) faça referência ao seguinte aspecto da comunicação via computadores: "Talvez de forma inconsciente, nossas escolhas são tomadas conforme o grupo. Em outras palavras, até a forma como ele é percebido, a sua 'fisicalidade' é, até certo grau, auto-selecionada." O diagrama apresentado abaixo é parcialmente calcado nesta crença; é uma adaptação do modelo desse autor sobre a forma como se deve apresentar uma comunidade estruturada via comunicação por computadores:






Para nossos propósitos, podemos considerar o eixo do processo como o que lida com as dinâmicas sociais, ou a extensão em que o que está em jogo é Gemeinschaft ou Gesellschaft . Já o eixo do contexto lida com a estruturação dos interesses. Podemos considerar esse esquema para resumir a dialética entre o eu e o outro, ou o privado e o público. O ponto central de equilíbrio é uma meta utópica, o ponto em que o indivíduo se realiza completamente dentro da comunidade.

Graham (1995) aponta que, em um nível básico, tal modelo descreve qualquer discussão informal, mas seu lugar no ciberespaço revela que "as conversas mediadas por computador são auto-referenciais... [As comunicações via computador revelam] a natureza dinâmica da estrutura de uma comunidade que se auto-organiza."

Como qualquer tentativa de mapeamento precisa admitir, o modelo acima só pode ser preciso se servir como entendimento do espaço conceitual em que nos envolvemos. Obviamente, as descrições dos quatro setores que ali aparecem não são fixas, porque qualquer intersecção de dois pontos diferentes pode configurar uma impressão diferente da natureza da comunidade envolvida. Portanto, conviria que não nos contentássemos com uma representação rudimentar das agregações sociais; precisamos combiná-la com a representação de como se foram essas unidades sociais. "A sociedade não apenas continua a existir pela transmissão, pela comunicação, mas pode ser dito com justiça que existe na e pela transmissão, na e pela comunicação" (Dewey, 1916, 5).

Podemos dizer que isso também serve para a comunidade. Destarte, a cultura das comunidades virtuais pode ser formalmente averiguada relacionando-se o ato comunicativo ao ambiente mais amplo em que ele ocorre. Relacionar a comunidade ao ato simbólico de comunicar é algo útil, porque a contingência da comunidade está ligada à contingência da identidade, e a identidade, como já foi indicado, depende dos meios pelos quais nos comunicamos.

Habermas pode nos ajudar neste ponto, visto seu tratamento da comunicação também ser dividido em quatro domínios:






Ao consideramos as comunicações por computadores, precisamos tratar com muita seriedade o mundo interno da pessoa que se comunica, o reino da subjetividade, principalmente quando se descobre ser ilusória situação dos atores autoconscientes que exercem uma "soberania no processo de informação". Nesta situação, os pensamentos, os sentimentos e as percepções mais internos dos atores produtores de cultura são algo muito importante. Mesmo assim, conviria notar que não se pode simplesmente reduzir as comunidades virtuais a uma dialética entre as formas de observação subjetiva e objetiva da realidade sócio-cultural. Diferente das comunidades "reais" físicas, a "verosimilhança" das comunidades virtuais é problemática: o "virtual", no termo, implica a obrigação de [cada um] internalizar a definição de comunidade e que essa não pode ser externalizada em algo objetivo e específico.

Assim sendo, baseado em que mais propriamente se estruturam as comunidades virtuais? Embora a linguagem e as normas sociais certamente contribuam para a concepção do termo, elas não o esgotam totalmente. Sem dúvida, o campo da natureza externa é desprovido de qualquer utilidade prática para tanto, e restringir o termo "comunidade virtual" ao campo da subjetividade dos atores sociais tampouco é aconselhável: neste caso, abrimos guarda às inevitáveis críticas à doutrina da relatividade absoluta da verdade. Talvez, então, a compreensão mais completa do termo possa ser alcançada situando-o no próprio ato comunicativo. Se, como vimos repetidamente, a natureza da comunicação mediada por computadores afeta as relações sociais de seus participantes, talvez se possa realmente dizer que o "meio é a mensagem."

Neste ensaio, tentou-se mapear um extenso território não demarcado. O caráter único da infra-estrutura das comunicações por computador as novas formas de relações sociais por ela ensejadas levantam questões urgentes acerca da comunicação e da comunidade, que precisam ser criticamente interrogadas. Isso precisa ser feito, contudo, de uma maneira que deixe espaço para a negociação com a tecnologia e que não atribua de modo excludente a eventual forma superior de consciência nem as situações de conectividade comunitária, nem as situações que tipificam o individualismo isolacionista. Antes disso, as comunidades virtuais precisam ser vistas como entidades codeterminadas pelas forças tanto da Gemeinschaft quanto da Gesellschaft. É esse aspecto que as torna lugares cruciais em que se redefinem, ao mesmo tempo, o público e o privado, o "eu" e o "outro"; lugares cruciais, portanto, para a investigação posterior das sempre crescentes possibilidades de interação humana.




Tradução de Ana Luisa Callegari Basso e Morgana Rissinger. Revisão de Francisco Rüdiger.




"Community and identity in the electronic village". In David Porter (org.): Internet culture. Nova York: Routledge, 1997, p. 23-37. Derek Foster é Ph.D em estudos de comunicação pela Carleton University.




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