Comunidade em Abstrato: Um Dilema Político e Ético? *

Michele Wilson


Em cada lado do espectro político, hoje nós vemos uma temerosa desintegração social e um chamado para o ressurgimento da comunidade. (Giddens 1994: 124)

Em uma era em que as pessoas têm mais capacidade – através da comunicação auxiliada tecnologicamente – de estar interconectadas através do espaço e do tempo do que em qualquer outro ponto da história, um indivíduo pós-moderno na sociedade ocidental contemporânea está se sentindo paradoxalmente cada vez mais isolado e está buscando novos modos de entender e experimentar um harmonia social significativa1. A nostalgia contribui para essa busca. A representação da memória das comunidades estilo anos 1950, momento em que a ordem moral, social e pública “floresceu”, contrasta com a das formas sociais presentes, retratadas como caóticas, moralmente empobrecidas e narcisistas. Contudo, e ao menos na teoria, há também um desejo de formular modos mais enriquecedores de nos conhecermos através de “relações” que escapam das dificuldades das antigas e restritivas formas de comunidade.

Muitos estão olhando para uma forma de “estar juntos” que vista como portadora de valor e, mesmo, necessária. Ao voltarmo-nos para a tecnologia, deparamo-nos com a possibilidade das comunidades virtuais serem uma solução potencial [de nossos problemas]. As comunidades virtuais – ou comunidades experimentadas através da mediação tecnológica da Internet, que possivelmente serão ampliadas no futuro pelas tecnologias de realidade virtual – são representadas por alguns como uma forma de comunidade pós-moderna. Pintam essas comunidades virtuais como sua resposta teórica à procura por uma experiência menos excludente ou repressiva de comunidade. Talvez se prove que venha esse a ser o caso. Mas outros teóricos estão inquietos quanto a se a fé no potencial único, “liberatório” e interconectivo do virtual fornecerá uma visão adequada das futuras comunidades. Com isso não se quer afirmar que as celebrações de tal forma de comunidade a propõe como a única forma a ser praticada ou experimentada, já que, em algum grau, as formas “mais antigas” continuarão a existir. Como as relações entre formas novas e antigas são modeladas é algo que requer maior elaboração e atenção crítica.

Em vista da confiança que a sociedade tem na tecnologia como forma de resolver seus problemas, tanto o ceticismo quanto um exame maior em relação às alegações que cercam as comunidades virtuais fazem-se necessários. Parece plausível que a ânsia por comunidade, evidente na pós-modernidade, é na verdade parcialmente motivada pela experiência e as atribulações resultantes de se ser um “indivíduo” dentro de uma sociedade organizada e auxiliada tecnologicamente2. Como tal, é interessante notar que existem semelhanças entre as direções tomadas pelas teorias da comunidade formuladas dentro e fora do âmbito tecnológico. Se alguns vêem a solução como tecnológica e outros, embora igualmente preocupados com a questão da significação da comunidade, evitam o tópico da tecnologia completamente, para ambos o mesmo tipo de questão precisa ser feita: a saber, se, ao encarar as dificuldades apresentadas pelas antigas conceituações de comunidade, os teóricos não estão levando a complexa noção de comunidade a um entendimento superficial e unidimensional da interação humana. O que eu quero sugerir é que, através da retirada da comunidade de uma arena política e social corporificada – seja para alojar-se dentro de uma abstração filosófica ou para tornar-se uma interação incorpórea e tecnologicamente sustentada, pode bem ser que se esteja tornando impotente e irrealizável nossa preocupação ética ou política com o Outro. Nesse caso, a “comunidade” é produzida como um ideal, ao invés de uma realidade, senão algo que termina completamente abandonado.




Tecnologias da Individuação

Investiga-se neste texto as implicações éticas e políticas da ascensão das culturas desencarnadas. Fazer isso requer distinguir as aplicações das tecnologias de comunicação e informação nas áreas de administração, vigilância e comunicações. Existe, é claro, justaposição significativa entre estas áreas. Pelo bem da simplicidade, eu me referirei a dois “tipos” de tecnologia de informática: as tecnologias de sistema ou bancos de dados usados por setores públicos e privados, e a Internet3.

Os Bancos de dados são usados por instituições visando acumular, combinar e criar informação sobre todas as facetas da vida (incluindo a vidas privada das pessoas). Estes sistemas operam desde locações diversas, descentralizadas, muitas vezes com intenções ou orientações diferentes. Os sistemas de bancos de dados estão se tornando cada vez mais interconectados e sofisticados, assumindo a forma de um sistema de informação global, capaz de análise infinita, profiling (criação de perfis de usuários) e combinações de informação. Isto tem conseqüências para a subjetividade dos atores sociais através da criação de um panóptico tecnologizado4. O indivíduo ocidental cada vez mais experimenta sua vida como algo monitorado pela tecnologia: é pego por uma câmera veloz; capturado em vídeo enquanto faz compras; monitorado para ser mais eficiente no trabalho por técnicas de vigilância tecnológica; e gravado fazendo um empréstimo que é, então, ligado a outras transações financeiras e práticas de compra, para ser inserido nas estatísticas demográficas. Estes são apenas alguns exemplos de vigilância contemporânea. A vigilância contínua, embora muitas vezes impossível de se verificar, e tem implicações, como Foucault (1977) nota em Vigiar e Punir, no fomento das práticas de normalização. O poder da norma refere-se ao processo pelo qual um sujeito se auto-impõe ou interioriza normas e comportamentos particulares, para se adequar a uma compreensão auto-percebida (mas construída socialmente) de normalidade. Este processo é acentuado pela percepção pelo próprio sujeito da profundidade e natureza pervasiva de sua visibilidade. Os Bancos de dados projetam seu olhar através do espaço disciplinar, permitindo uma vigilância mais difusa e mais pervasiva de cada sujeito do que era possível anteriormente. O sujeito sob vigilância é universalizado, reduzindo-se a um arquivo entre tantos, mas também individualizado, ao passar a ser pessoalmente identificável, prisioneiro de um espaço-tempo visualidade de maneira constante pelos bancos de dados. Arquivos podem ser recuperados em qualquer momento, com um simples comando digitado em um terminal de computador. Isso tem o potencial de “compartimentalizar” o indivíduo, separando-o dos outros, através das qualidades analíticas do olhar.

Os Bancos de dados são percebidos como um modo de ajudar o vigilante. Dado que esse geralmente é, de algum modo, uma instituição, visualizar aqueles que estão fora (ou trabalhando dentro) de seu sistema é algo que geralmente invoca as imagens do Grande Irmão de Orwell – senão a de seus muitos “pequenos irmãos”. A tecnologia seá orientada no sentido de oferecer controle, através do acúmulo e da análise de informação. Dentro do campo informacional, a informação em si converte-se em uma entidade, passível de ser movimentada, manipulada e transformada sem ligação com seu objeto de referência.

A Internet também permite que a informação seja movimentada, manipulada e transformada, pondo em questão a autoria e autenticidade do material original. Em contraste com os bancos de dados dos sistemas de informação, a Internet todavia tende a ser mostrada como uma tecnologia libertadora. As informações que oferece são acessíveis para muitos usuários e ela é interativa em sua forma de funcioamento. A Internet permite a ampliação de muitas atividades cotidianas. Ela é utilizada na coleta de informações, na discussão de tópicos sociais e acadêmicos, na disseminação de olhares na e realização de transações comerciais. Como os bancos de dados, a Internet não é limitada por fronteiras e é cada vez mais acessível em uma escala global5. É um sistema de comunicação diverso, descentralizado, com input ilimitado – qualquer um que está conectado a rede pode participar do sistema, resultando em desenvolvimento aparentemente descontrolado e imprevisível. Algumas instituições vêm isso como potencialmente ameaçador, levando-as a expor na mídia suas atividades “ilegítimas” ou socialmente destrutivas, tanto quando as tentativas feitas por políticos de lidar com este assunto através de discussões sobre censura e regras6. No entanto, essas instituições também buscam um maior envolvimento com a tecnologia, desenhando novos modos através dos quais os usuários podem fornecer informações, sem saber, sobre si mesmos e o que fazem, contribuindo assim para sua própria vigilância. Howard Rheingold constrói o cenário concebível para aqueles que são pobres de informação, ou têm acesso limitado à tecnologia: a Internet lhes é oferecida gratuitamente em troca da desistência de partes de sua privacidade pessoal ou o controle sobre suas informações privadas (Rheingold 1993: 293-4). Construtos tecnológicos como mecanismos de busca (search engines) artificiais, estão aumentando tanto em habilidade quanto em número e podem muito bem ser capazes de criar perfis e registros das atividades individuais e seu comportamento dentro das comunidades virtuais. Neste caso, a Internet também opera como um banco de dados.

Marcando deste modo as semelhanças entre a Internet – em termos não apenas de seu potencial, mas também de sua atual capacidade – e os bancos de dados, sugere-se que a aplicação à tecnologia de termos como “controladora” e “liberatória” é arbitrária. Obviamente, a tecnologia em si não é controladora ou liberatória; os usos culturais e sociais a que ela serve é que podem sê-lo. Quando a Internet opera como um banco de dados interconectado, ela tem um potencial para criar modos panópticos de relações de reconhecimento tanto quanto o tem para melhorar nosso sentimento de liberdade e mobilidade. A Internet conecta e desconecta indivíduos ao mesmo tempo. Na condição de paradoxo da “conectividade”, da participação com outros em um espaço virtual, essa tecnologia desconecta o indivíduo das interações corpóreas que o cercam. Apesar de não poder individualizar através de operações de vigilância no mesmo grau atualmente permitido pelos bancos de dados, a interação através da internet todavia aumenta a natureza solitária da participação individual como uma atividade ao mesmo tempo singular e universalizada.




Igualdade, fraternidade e liberdade em uma comunidade virtual?

As comunidades virtuais são formadas e funcionam dentro do ciberespaço – o espaço que existe dentro das conexões e redes de tecnologias de comunicação. Um número crescente de escritores as apresentam como formas novas e excitantes de comunidade, que liberam o indivíduo das amarras sociais da identidade corporificada e das restrições de espaço encarnadas geograficamente; que nos eqüalizam através da remoção das estruturas hierárquicas corporificadas; e que promovem uma sensação de conexão (ou fraternidade) entre os participantes interatuantes. Assim, as comunidades virtuais são retratadas como a epítome de uma forma de comunidade pós-moderna, dentro das quais a multiplicidade do eu é reforçada e suas diferenças proliferam sem as inibições oriundas estruturas sociais exteriores.

As comunidades virtuais existem dentro das listas de discussão, dos grupos de debate, dos MUDs, MOOs e outras redes interativas. A interação é conduzida predominantemente por meios textuais. As descrições, ações e locais de reunião são todas comunicadas textualmente, produzidas por um teclado. Isso certamente irá mudar com o tempo, considerando a crescente sofisticação da tecnologia de realidade virtual e as contínuas melhorias nas tecnologias gráficas e de vídeo (como as de vídeo-conferência). No entanto, embora a informação visual esteja limitada a descrições baseadas em texto, a informação sensorial esteja em grande parte excluída da interação, o “participante” ou membro da comunidade é capaz de mostrar a si mesmo em qualquer formato, forma ou gênero que deseje. Os participantes de comunidades virtuais podem escapar de suas próprias identidades corporificadas e, de acordo com isso, de quaisquer iniqüidades e atitudes sociais ligadas às várias formas de nossa encarnação. Raça, gênero ou defeito físico são indiscerníveis na Internet. As bases para fazer descriminação incorporada são removidas, facilitando a participação e dando a cada participante um igual status dentro da rede de comunicação.

A libertação referida também pode ser conquistada em relação às amarras do espaço geográfico, na medida em que o lugar físico do “corpo” do participante é transcendido, através da ampliação da interação dentro do ciberespaço, comprimido em uma mídia capaz de fácil transversalidade. Assim, as comunidades virtuais também podem ser vistas como um meio de superação do isolamento inerente à vida contemporânea, onde as pessoas não conhecem seus vizinhos físicos, não se envolvem nas decisões de sua cidade e, muitas vezes, trabalham em casa. Trata-se de uma “solução” que ignora a natureza fisicamente isolada da participação: apenas a mente é colocada em interação mútua. Vale notar que os participantes em comunidades virtuais muitas vezes sentem necessário reforçar/complementar suas relações desencarnadas simulando, em um nível ritual, os contatos mais carnais ou sensoriais. Por exemplo, os participantes do WELL – uma comunidade virtual na Internet – fazem piqueniques reais e promovem encontros sociais regulares, procurando desenvolver uma compreensão mais completa de cada um em tais encontros.

A percepção de anonimato nos é apresentada como mais uma vantagem pelos proponentes da comunidade virtual. Liberados do olhar normativo das instituições e da sociedade, a identidade não pode ser verificada, ligada ao usuário de carne e osso. O comportamento não pode ser restringido por normas e valores do “espaço real”7. O grau de anonimato realmente conseguido todavia é questionável, e terá de enfrentar provações à medida que os provedores de informação e os interesses comerciais criarem meios mais efetivos de acumulação de informação sobre os usuários de redes. Além disso, a confusão dentro de algumas comunidades – resultante da identificação do anonimato com ausência de responsabilidade – levou-as a requerer que seus participantes indiquem algum tipo de identificação estável. No WELL, por exemplo, os participantes são obrigados a vincular todas as suas formas de apresentação com uma mesma identidade de usuário, permitindo-se assim que suas identidades sejam verificadas (Rheingold, 1993). A necessidade de um tipo de ordem dentro da interação levou algumas comunidades a sacrificar os aspectos libertários do anonimato em favor da responsabilidade. O registro e o arquivamento das interações também criam “traços históricos” do protagonista, diminuindo sua capacidade em interagir sem identificação, devido à memorização de seu comportamento passado das frases que pronunciou.

Existem guias normativas dentro dessas comunidades e a vigilância – apesar de modificado – nelas se aplica. Marc Smith escreve que, como nas comunidades do “espaço real”, as comunidades virtuais precisam invocar e manter o compromisso de seus membros; monitorar e sancionar comportamento; e levar adiante a produção e distribuição de recursos essenciais (HREF 1). Existem regras específicas ligadas a cada comunidade, com as quais os participantes devem concordar, para manter seus direitos participativos. Muitas dessas regras são criadas ou pelos próprios participantes ou, mais freqüentemente, pela(s) pessoa(s) que criaram o espaço comunitário. Por exemplo, em grupos de conferência, o “hospedeiro” tem o controle sobre os tópicos discutidos e o comportamento permitido aos participantes da conferência, a ponto de certos tópicos e usuários poderem ser banidos, se necessário8.

A questão da ética, ou uma noção de bem comum, dentro das comunidades virtuais em si (ou mesmo dentro da noção de comunidades virtuais) está relacionado com a existência desse tipo de guias normativas que mencionei. Teóricos comunitaristas como Sandel, Taylor e MacIntyre se preocuparam em pensar a importância de uma certa noção de bem comum para comunidades do “espaço real”. Eles examinam a encarnação das éticas e das normas nas instituições nas práticas de tais comunidades.

Nessa ótica, seria o caso de se pensar se não é algo semelhante à obtenção de uma iluminação espiritual que é vendida comercialmente com o uso de tecnologias da informação. A recente campanha publicitária de televisão da IBM, “Soluções para um Mundo PequenoTM” (Solutions for a Small Planet.), revela uma tentativa de ligar suas tecnologias ao ethos que guia os atuais movimentos de espiritualidade New Age. Duas mensagens são mostradas através destes anúncios – uma usando freiras e outra, monges, ambos tão excitados pelas capacidades do computador que este interrompe, senão toma o lugar de suas contemplações espirituais. Primeiro, os anúncios sugerem a possível realização de uma experiência espiritual, já que a contemplação religiosa significa ou é mesmo substituída pelo uso de tecnologia. Segundo, o próprio termo “mundo pequeno” sugere consigo as possibilidades de interconectividade e acessibilidade universais. Com esta tecnologia, o espectador pode rapidamente inferir, é fácil se conectar com todo o mundo, ao invés de ficar perdido em um ocenao de isolamento e alienação: uma variação do clichê “que mundo pequeno”, que se costuma usar quando se encontra alguém familiar em um local improvável. O comercial enfatiza a transversalidade e a compressão do espaço em um conceito ou experiência mais manejável socialmente. Espécie similar de sugestão sustenta a ênfase comunitária dada às tecnologias da interatividade. Usando estas tecnologias, sugere-se, o global pode se tornar tão manejável e familiar como sua comunidade local (a comunidade que você, nostalgicamente, perdeu).

Esta mensagem de maneabilidade e familiaridade parece ser manuseada de modo acrítico por todos os entusiastas de comunidades virtuais. Eles vêem a boa vida como algo alcançável através das oportunidades dadas a identidades flexíveis e desencarnadas, livres em relação ao tempo e espaço geográficos, e não mais dependentes de outros “significativos”. Resulta daí que o que é significativo para eles são as formas de participação. A ênfase na multiplicidade e na escolha ressalta os procedimentos, celebra a habilidade em escolher identidades e lugares, mas não explica a natureza da boa vida em si mesma.

No entanto, as comunidades virtuais também devem ser compreendidas como múltiplas e diferenciadas, tornando impossível delinear aqui as qualidades ou entendimentos de todas elas com objetivo de generalização. Qualquer análise da comunidade virtual precisa proceder em dois níveis diferentes, apesar de ligados em última instância: precisamos fazer uma análise das potencialidades da tecnologia que permitem às comunidades virtuais existirem em sua forma presente; e uma análise da forma específica de cada comunidade virtual. A primeira ajuda a identificar as capacidades e meios de todas as comunidades dentro do espaço virtual, permitindo certas generalizações; já a segunda se concentra na especificidade de cada comunidade virtual, com suas normas e regras particulares.

[Penso que] o que é promovido como parte da boa vida, via a tecnologia, é a ênfase na capacidade de escolha. Dentro de uma comunidade virtual, os indivíduos são capazes de escolher o nível ou grau de interação social. As pessoas podem escolher quando participar, podem escolher seus graus e padrões de envolvimento com outros – enquanto aqueles com quem eles querem se envolver concordarem9. Casamentos acontecem, relacionamentos “sexuais” são construídos e relações hierárquicas e administrativas são criadas. Como nota Sherry Turkle: “As mulheres e os homens contam que as salas e labirintos de MUDs são mais seguros que as ruas das cidades, que sexo virtual é mais seguro que sexo em qualquer lugar, que as amizades em MUDs são mais intensas que as amizades reais, e que quando as coisas não dão certo você sempre pode ir embora” (1995: 244, ênfase minha). Os relacionamentos podem ser quebrados em qualquer ponto pela simples retirada do personagem/identidade, deixando-nos pensativos a respeito do nível e profundidade dos compromissos ou investimentos feitos nestes relacionamentos.

Os indivíduos também podem escolher ter vários personagens dentro de uma comunidade, ou pertencer a várias comunidades, ao mesmo tempo. Destarte, as pessoas continuamente “passeiam” de um personagem a outro, assim como passeiam entre várias comunidades. Isso já levou alguns observadores a retratar as atividades de “construção de personagem” como análogas às de “passear”, conforme a descreve a teoria pós-moderna, com sua ênfase nas idéias de multiplicidade e de navegação nas superfícies (Turkle 1995: 44-5). Porém, isso não é diferente da multiplicidade de participações, papéis sociais e identidades que os indivíduos mostram na sociedade moderna, apesar do ritmo de transição entre elas, neste caso, não ser tão instantâneo como no ciberespaço. Tal instantaneidade acelera as habilidades gerativas necessárias para se assimilar rapidamente as “roupas” de cada personagem e pode mesmo afetar a experiência e os meios de se relacionar com o mundo de cada pessoa. Podemos comparar estes passeios e com “zapear” na televisão: ambos estão em busca permanente de estímulos mais gratificantes. Jonathan Crary nota que, “de maneira fundamental, estão nos inculcando como ‘natural’ a idéia de que devemos mudar nossa atenção rapidamente de uma coisa a outra” (1995: 66).

Pode-se perguntar se estamos nos tornando viciados sensoriais perpetuamente em busca de novas experiências; ou seja, se esta busca por estímulos constantes, mas aparentemente superficiais, está levando à promoção de formas de gratificação instantânea, às custas de uma investigação e compreensão mais comprometidas, complexas e significativas do mundo. Em termos de interação dentro de uma comunidade virtual, a ênfase está na fluidez e na escolha de associações em um espaço social. A interação é abstraída de particularidades mais concretas e encarnadas, tendo lugar dentro de um ambiente modelado pelos próprios atores. O “afrouxamento” das conexões pode parecer libertador, mas isso leva a uma desvalorização de muitos aspectos positivos e ontologicamente importantes destas mesmas conexões. Parece, por exemplo, contraditório relevar os aspectos enriquecedores das comunidades virtuais, se desvalorizarmos ou ignorarmos relações como aquelas que existem entre pai e filho e que muitos teóricos vêem como fundamentais para manter qualquer comunidade. Como David Holmes (1997) tão habilmente faz a analogia, os participantes de comunidades virtuais são como mensagens em garrafas, flutuando aleatoriamente nos oceanos, esperando ser colhidos – uma noção que se relaciona com o retrato pós-moderno do eu múltiplo da atual sociedade (Holmes 1997: 37-8). Que não existem ligações ou conexões “entre” essas garrafas, além da comunicação ao redor de certos interesses, não é motivo de ansiedade dentro de comunidades virtuais.

Antes pelo contrário, as alegações libertárias e pós-modernas sobre as comunidades virtuais baseiam-se numa promoção desse anonimato que permite a construção de identidades flexíveis, múltiplas e anônimas e a alteração das experiências espaciais e temporais. O que se descreve em formulações muito utópicas é a habilidade de “brincar” com a identidade e de promover a comunicação e a reunião de informação. Sugeriria de minha parte que a dissolução ou fragmentação do sujeito e a natureza instantânea e transiente de suas conexões desconectam ou abstraem o indivídua tanto da ação física quanto de um sentido de responsabilidade social e pessoal para com os outros. Podemos extrair um exemplo um tanto superficial do livro de Sherry Turkle, Life on the Screen (Vida na Tela). Turkle descreve um participante de uma comunidade virtual ativamente envolvido nas maquinações políticas da cibersociedade, mas também completamente apático e desligado da situação política que o cerca em sua vida “desconectada” (ou localmente encarnada), a ponto de não se importar em participar de uma eleição local para o senado (Turkle 1995: 242).

Blanchot nota um ponto semelhante, ao falar sobre as experiências desencarnadas do sistema de broadcasting:

O mundo todo nos é oferecido, mas por um olhar... Por que tomar parte em uma demonstração de rua, se no mesmo momento, seguros e descansados, podemos estar na demonstração [manifestação] graças ao televisor. (1993: 240)

No entanto, experienciar realmente a participação em uma demonstração e ser cercado pela ação, pelo barulho, pelo cheiro da multidão, é uma experiência mais complexa e envolvente da que a conseguida através de uma tela de televisão. Embora as comunidades virtuais possam ser interativas, elas não requerem nem compromisso físico (além de mexer com o teclado), nem extensão moral, política ou social além da rede. Daqueles que usam a Internet e comunidades virtuais, apenas uma pequena percentagem participa ativamente. O resto opera de uma posição voyeurística ou “de platéia”, semelhante àquela praticada ao se assistir televisão.10

Como outros os elementos são filtrados pela dependência às descrições baseadas em texto, a natureza da interação online é muito focada. A atenção é colocada apenas no ato da comunicação, conforme percebido através da interpretação visual do texto11. Tal coisa conduz à afirmação de que relações na Internet são mais intensas que aquelas no espaço real. De algum modo, essa visão da interação dentro de uma comunidade virtual poderia ser comparada à idéia de um bar de solteiros, parece haver em ambos uma mesma singularidade de propósito. Acontece que tal intenção singular não se equaciona bem com a experiência complexa de intimidade. De qualquer modo, uma analogia bem diferente sobre interação com um propósito singular, tendo um resultado muito diferente, também pode ser feita facilmente usando-se o exemplo da demonstração na rua dado por Balnchot.

Anthony Giddens escreve: “A intimidade... não é, como alguns já sugeriram, um substituto para comunidade, ou uma forma degenerada desta; é a própria mídia por qual um sentido do comunal é gerado e continuado” (1994: 127). A questão é se a intimidade pode ser conseguida em um espaço público como a internet, apenas com representação baseada em texto e imaginação. Precisamos perguntar se “comunidade” pode ser definida suficientemente pelas maquinações de seres aplainados e esvaziados que interagem através de texto pelo ciberespaço12; ou se, ao remover as dificuldades e limitações de comunidades mais tradicionais, nós também não estamos tirando muitos dos fatores que “tornam” a comunidade significativa para seus participantes.




Conclusão

As comunidades virtuais são celebradas como criadoras de espaço e forma para uma nova experiência de comunidade. Esta experiência é mostrada como múltipla, libertária, igualitária e, assim, propiciadora de uma experiência mais rica de união. No entanto, um exame crítico deste entendimento revela, paradoxalmente, um “emagrecimento” da complexidade da participação humana ao nível de transações unidimensionais e um abandono das responsabilidades políticas e sociais do “espaço real” por parte dos usuários de Internet. Esta tendência no sentido de uma retirada da esfera política ativa do espaço real, ou de abandono das tentativas de realizar uma forma encarnada de comunidade, se espelha nos trabalhos de outros teóricos contemporâneos da comunidade, como Jean-Luc Nancy.

Em seu desejo de evitar a colocação de tendências restritivas e totalizadoras na experiência ou compreensão do que é uma comunidade, os teóricos de orientação tecnológica e não-tecnológica a perderam de vista como possibilidade tangível, encarnada ou concreta, relegando-a ou à esfera da existência ontológica, pré-política ou pré-histórica; ou a uma existência experimental dentro dos nódulos de um sistema de rede de computadores. Este movimento geral em direção à separação ou abstração da comunidade das possibilidades políticas do espaço real retira toda necessidade para ação direta, encarnada e política. A profundidade do comprometimento com os outros dentro de uma comunidade também diminui, questionando-se a possibilidade de responsabilidade pela coletividade. Como Nancy mesmo enfatiza, uma preocupação com o outro é vital para qualquer experiência válida de comunidade. No caso das comunidades virtuais, tal cuidado ético raramente aparece.

O desenvolvimento da cultura e da tecnosocialidade virtuais no cotidiano traz consigo implicações contraditórias para a identidade e a comunidade. As comunidades virtuais enriquecem ou “arredondam” o uso de tecnologia ao encorajar a comunicação e a imaginação criativas. Crianças crescendo usando a mídia a verão como uma extensão de seu mundo, incluindo-a em suas bases de relacionamento. Isto em si mesmo terá conseqüências para os modos como elas experimentam a si mesmos e suas relações interpessoais. Mas devemos tomar cuidado com as alegações que fazemos sobre, e as esperanças que investimos nas comunidades virtuais. Dependendo de entendimentos de comunidade que funcionam paradoxalmente concentrando a atenção sobre nossos eus, ao mesmo tempo que nos distanciam de nossas relações corporificadas, podemos estar acentuando a compartimentalização contra a qual estamos lutando.




Traduzido por Francisco Araújo da Costa. Revisão de Caroline Andreis.




* "Community in the abstract: a political and ethical dilemma ?" Publicado originalmente em David Holmes (org.): Virtual Politics: Identity and Community in Cyberspace, London: Sage, 1997. Reproduzido com corte conforme editado em David Bell e Barbara Kennedy (orgs.): The cybercultures reader. Londres: Routledge, 2000, p. 644-657. Michelle Wilson é doutora em ciência política pela Monash University e editora do Arena Magazine.


NOTAS

1. A idéia de “comunidade” está ressurgindo em interesse tanto entre teóricos quanto entre a sociedade em geral. Os Estados Unidos tem podido assistir ao crescimento do auto-nomeado movimento da “Comunidade Responsável”, que enfatiza o modo como a comunidade sofre via o privilegiamento dos direitos e preocupações individuais. Também já há um aumento na retórica sobre comunidade empregada por políticos como Bill Clinton e Tony Blair (ver Wilson 1995).
2. Isto não é um argumento a favor do determinismo tecnológico. Ou seja, eu não estou dizendo que a tecnologia sozinha produz práticas subjetivas ou visões específicas e inevitáveis. Ao invés disso, estou defendendo que os usos dados à tecnologia pela sociedade e pela cultura, os modos de pensamento que são acentuados por suas aplicações e as práticas que surgem ou aumentam através das suas potencialidades têm conseqüências para a experiência da subjetividade. As capacidades tecnológicas, que permitem práticas que seriam impossíveis de outros modos para a sociedade realizar sem sua assistência, também se beneficiam, é claro, do seu potencial efeito subjetivo.
3. As telecomunicações também poderiam ser situadas aqui e são importantes, porque têm impacto político e cultural. Para mais elaboração sobre as mídias broadcast ver McCoy (1993) e David Holmes (1997).
4. Ver Foucault (1977) e Pôster (1990) para maior elaboração sobre os efeitos e o potencial do panóptico (conforme modelado para fins de construção de uma prisão por Jeremy Bentham). Poster se refere a este fenômeno como Superpanopticon. No entanto, ele não enfatiza o papel do olhar, ou visibilidade, na aplicação e auto-imposição dos processos de normalização do sujeito. Os Bancos de dados permitem uma extensão daquela visibilidade no espaço abstrato, produzindo um olhar mais pervasivo e intrusivo que aquele possível sem a mediação tecnológica.
5. O ponto não deveria ser amarrado ao debate sobre a universalidade de acesso e participação na Internet, visto que seus participantes primários são os homens brancos que falam inglês de países ocidentais industrializados.
6. Por exemplo, Clinton assinou o Ato de Decência nas Comunicações, que autoriza a censura e monitoramento de material passível de objeção na Internet. A China começou a restringir o acesso à Internet, e Victoria, na Austrália, já providenciou seus próprio meios de censura online. Ver van Niekerk (1996: D1).
7. Alguma dificuldade nasce ao se tentar definir qual é o termo utilizável na descrição da interação e experiências fora do ciberespaço. “Vida real” é problemático, já que coloca uma distinção entre experiência encarnada como sendo a real, e interação via tecnologia como não sendo. Participantes em comunidades virtuais obviamente iriam contestar a “irrealidade” de suas ações, que podem ter um papel muito “real” em suas vidas. Também peca por não levar em conta os aspectos construídos ou perceptivos de nossas interações na realidade do espaço real ou encarnado. “Espaço encarnado” indica o campo do contato face-a-face apenas, e é assim também problemático, além de ser menos manejável. O termo “espaço real” – que ainda pode não ser de todo apropriado – é mais cabível.
8. Este é um passo relativamente drástico e geralmente requer certa consulta a outros, antes da ação ser tomada (HREF 1:29).
9. Em alguns casos, onde o acordo mútuo não foi obtido, houve uma tremenda discussão sobre o assunto. Um estupro virtual provocou preocupação e debate significativos sobre o impacto de atos de violência baseados em texto.
10. Estatísticas mostram que 50% de todas as mensagens no WELL são trocadas por apenas 1% dos usuários (HREF 1: 96).
11. Apesar de agora os gráficos e sons estarem gradualmente sendo incorporados.
12. “Se os sistemas virtuais podem manter a profundidade e a complexidade necessárias para manter estruturas sociais duráveis capazes de agüentar o tempo e circunstâncias danificadoras ainda é desconhecido, ainda está por se ver” (Stone 1992: 620).




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