Gozando Futuro Afora*

Sadie Plant


O sexo virtual tem sido definido como algo seguro e sórdido, sustentáculo maior de um prazer descarnado, livre de contato e sem secreções, que existe em uma zona de total autonomia. Tratar-se-ía de um ambiente livre de efeitos colaterais e das complicações das verdadeiras relações sexuais: DSTs, gravidez e abortos, além das tristes obrigações das necessidades emocionais. Um circuito fechado, selado em outra parte, um espaço virtual para ser acessado à vontade.

Se a pesquisa e desenvolvimento técnicos continuam a ser preenchidos por tais esperanças utópicas, convém notar que há também um sentimento no qual o sexo cibernético parece "anticlimático" mesmo antes de ter começado e que soa como um contratempo para o seu avanço.

O clímax é o que sempre irá faltar na ponto cibernético, que é menos um auge do que um platô. O auge da experiência é a novidade de ontem. Quanto à comodidade e à segurança do cibersexo: sexo em "MOOs" pode ter perigos imprevistos em si próprios, mas o sexo cibernético e tudo aquilo que ele envolve é tão cômodo e contido quanto a uma guerra virtual. da qual já é um efeito colateral.

O cibersexo introduz o apagamento da interface homem-máquina, uma imersão que lança o antigo indivíduo em uma rede pulsante de mudanças, que não é nem climática e limpa, tampouco segura. Qualquer um que acredite que as telas de computadores se fundam para produzir um ambiente seguro deveria ler o cyberpunk mais uma vez: "É tudo o que lá estava: apenas linhas", disse Travis. "Conectemo-las diretamente entre si. Redes, sangue, mijo, e merda. Do jeito que a camareira do hotel os encontrou" (Cadigan, 1991: 275).

Mesmo com ausência de simstim [estímulo sensorial] completo, o cibersexo é tecnicamente bem avançado: o hardware é fetichizado, o software é pornô, e vastas proporções dos sistemas de telecomunicações são consumidas pela erotização. Mas esses são somente os mais evidentes - e talvez os menos interessantes - exemplos de uma degeneração generalizada do sexo "natural". Assim como as hard e os wetwares desabam sobre os softwares, estranhas mutações arruinam o contexto sexual. A simulação sexual converge com a desordem de toda a economia sexual, a corrosão de suas ligações com a reprodução, e a decadência de sua especificidade: o sexo dissipa-se em drogas, transe e 'danças de acasalamento'; androginia, hermafroditismo e transsexualismo tornaram-se perceptíveis de modo crescente; parafilia, modelagem do corpo (body building), sexo exótico, e o que Foucault chama de "slow motion do prazer e da dor" do sado-masoquismo - "sexo de alta tecnologia" (Califia 1993a: 175) - proliferam. A cibernética revela um organismo cortado transversalmente por uma vida inorgânica - pela comunicação bacteriana, a infecção viral, e os estudos biológicos inteiros de formas replicadoras, que subvertem mesmo a mais perversa noção do que é "fazer sexo". A reprodução funde-se com replicação e perde o seu apoio na "síndrome do prazer". O clímax distribui-se de forma plana, o auge da experiência fica num platô.

O futuro do sexo não ocorre de uma vez por todas. Hoje em dia, há um retrocesso a um passado em que o sexo em si estava destinado à reprodução. As relações eram, então, circuitos dissimulados, a imersão sempre conduzia à reprodução. O sexo não era 'não-comercializado', e o prazer sempre foi apenas uma parte de uma equação com dor, que encontrava sua solução na intensidade.

Isso tudo ocorria em um mundo cuja estabilidade dependia de sua habilidade de confinar a comunicação aos termos de uma transmissão patrilineal de organismos individualizados. As Leis e genes compartilhavam de uma via de mão-única, a unilateral ROM[A], pela qual as tradições judaico-cristãs transmitiram-se através de gerações. Trata-se de família de um só pai do homem, para a qual mesmo a Mãe Natureza foi concebida por Deus como a supermodelo da alta costura, perfeitamente formada, sem a qual tudo seria desatinado. O Humanismo determinou a criação de um "espelhismo" (mirrorism), mas o espelho ainda reflete a imagem de Deus. O projeto: 'refletir e especular'; supervisionar e vigiar. Deus e homem convergem em um circuito fechado de inícios e fins, único e o mesmo, homem a homem. Criação e procriação. Surgiu o 'avançar' e o multiplicar, das quais a cultura patriarcal toma a sua inspiração.

A concepção imaculada do mundo tem sido sempre sujeita às incertezas que formam as bases das reivindicações de paternidade. Mas é somente agora, que a inteligência material começa a ruptura suave da barreira formal dessa jornada, na qual a confiança do costume patriarcal já estava minada. Ele nunca irá saber se elas fingiam ou não, fosse a respeito de seus orgasmos, fosse sobre quem era o autor da paternidade. Contudo, o que é novo a respeito de sua insegurança é que agora ela começa a ser sentida. Como, Deus, saberá ele se é o pai? O problema que se coloca é outro: como os processos de auto-organização atacam desde o interior não está mais uma questão, tornaram-se um problema tático, uma questão tátil, um acontecimento material.

A cibernética inicia o aparecimento de uma complexidade material que, finalmente, usurpa a linha procriativa do ser humano. Mesmo em sua versão mais moderna e autoritária, a cibernética derruba a distinção entre máquinas e organismos: os sistemas de Norbert Wiener funcionam indiferentemente se seus wares são hard, soft ou wet. As fusões de humanos e máquinas das pesquisas de Wiener nos tempos de guerra fazem mais do que discutir os limites da espécie: elas também reescrevem sua história. 'Organismos biológicos... tornam-se sistemas bióticos, esquemas de comunicação como outros. Não há uma separação ontológica e fundamental em relação a nosso conhecimento formal de máquinas e organismos, de técnico e orgânico.' (Haraway, 1991: 177-8).

O ciborgue não tem história, mas está escrito nos humanos como seu passado. Nos anos 60, se tornou óbvio para McLuhan que a despeito - ou ironicamente, por causa dessa negligência a seu respeito, a espécie humana estava destinada a ser os 'órgãos sexuais da máquina do mundo, como a abelha o era da planta-mundo, tornando-se apta a fecundar e desenvolver sempre novas formas.' (McLuhan, 1964: 56). Os escravos, trabalhadores, mulheres e robôs nunca estiveram sozinhos em seus funções ciborgues. Nem estiveram simplesmente trabalhando para o chefe, cuja soberania foi sempre uma fraude. O Homem e seu Deus eram essenciais, apesar de serem uma parte, e talvez definitivamente dispensável, componente de uma futura mutação que estavam construindo o tempo todo.

O organismo moderno é há muito um replicante, que escapou da linha de produção de uma disciplina que 'estipula para cada indivíduo seu lugar, seu corpo, suas doenças e sua morte, seu bem-estar'. Segundo Foucault, as disciplinas incluem até mesmo a 'determinação definitiva do indivíduo, do que o caracteriza, do que pertence a ele, do que acontece a ele' (Foucault, 1977: 197). Desde então, o orgânico e o social afundam ou nadam juntos. A modernidade é marcada por 'uma explosão de numerosas e diversas técnicas para atingir a subjugação de corpos e o domínio de massa, marcando o início de uma era de biopoder" (Foucault, 1978: 140), na qual o 'homem ocidental foi aprendendo gradualmente o que significa ser uma espécie viva em um mundo vivo, a ter um corpo, condições de existência... . Pela primeira vez na história... a existência biológica passou a ser refletida em uma existência política.' (Foucault, 1978: 142).

A humanidade ruma em direção a um corpo organizado, o corpo com órgão, o membro viril. O humano moderno é melancólico, tão distante de emoções quanto o possível, formatado em gêneros e sexos em um mundo solidificado no molde da fraternidade e da herança patriarcal. O corpo feminino, nele, está enfermo, no caminho dos limites da vida, enquanto o falo funciona como símbolo de um grupo, ou como propriedade - para os interesses próprios de um indivíduo, de uma sociedade, de alguma espécie.

O membro masculino funciona como o 'elemento mais iespeculativo e ideal' desse sistema social, orgânico e seguro. Como Deleuze e Guattari dizem, 'é suficiente fazer mulheres, crianças, lunáticos, e moléculas rirem' (Deleuze e Guattari, 1988: 289): o falo é um 'ponto imaginário', o produto da 'capacidade de prender a atenção nos corpos e em sua materialidade, suas forças, energias, sensações e prazeres' (Foucault, 1978: 155). Mas é também o suficiente para garantir a constituição da 'arborescência', a 'submissão da linha ao ponto' (Deleuze e Guattari, 1988: 293). O ponto é algo que é preciso sempre lembrar: desmembrar-se não é permitido.

Nisso, como aponta Donna Haraway, também reside a situação em que o orgasmo feminino sai cena: 'antes da segunda metade do século XVIII, na Europa, a maioria dos escritores da área médica assumiram que o prazer sexual feminino orgásmico era essencial para a concepção'. Desde então, porém, os 'orgasmos femininos vêm parecendo não-existentes ou patológicos, do ponto-de-vista da medicina ocidental'. E 'perto do fim do século XIX, os cirurgiões retiravam o clitóris de algumas de suas pacientes como parte de uma reconstituição das pacientes, para que elas se tornassem propriamente femininas, indubitavelmente diferente dos homens, a ponto de parecer quase outra espécie.' (Haraway, 1991: 356).

Assim, a intensidade é acumulada em um único ponto, monopolizada pelo membro masculino e identificada como orgasmo. Toda sexualidade é masculina, escreve Freud. A sexualidade feminina e o orgasmo feminino são, da mesma forma, contradições em termos, variações empobrecidas do tema fálico. Orgasmos são apenas o que esses organismos têm. Ambos são algo que se possui, algo de próprio, funcionando para restaurar o equilíbrio e assegurar a identidade do corpo organizado, isto é, a integridade orgânica do indivíduo ocidental.

Os genitais da mulher são simplesmente ausentes, mascarados, fechados em sua casca. O "Nada" [zero] é ignorado e escondido. 'Alguém teria que cavar muito fundo para descobrir sob os traços dessa civilização, sob sua história, os vestígios de uma civilização mais arcaica capaz de dar algum indício à sexualidade feminina.' (Irigaray, 1985: 25).

Contudo, se houvesse tal sexualidade a ser encontrada em um profundo e distante passado, por trás de telas reflexivas, o seu descobrimento seria sempre uma questão de retro-especulação, um olhar para o passado com olhos programados pela 'lógica que tem dominado o ocidente desde os tempos dos Gregos'. Além disso, indubitavelmente teria um alfabeto diferente, uma linguagem diferente. Não se deveria esperar que 'os desejos da mulher falassem a mesma língua que a do homem' (Irigaray, 1985: 25). O homem é o indivíduo que relata seus desejos; seu sexo é extremamente narrativo. O dela, em vez disso, tem sido uma "bobagem" nas histórias que ele conta.

No final do século XX, os 'orgasmos nos termos próprios do indivíduo' tornaram-se motivo de um lamento coletivo para um feminismo crescentemente consciente da extensão na qual a sexualidade feminina estava sendo confinada. 'O orgasmo do homem significava auto-contenção e auto-transcendência simultaneamente, caracterizado pelo para si e pela transcendência do corpo, através da razão e do desejo, pela autonomia e êxtase'. Havia um sentimento de que se as mulheres não estivessem mais "presas entre o normal e o patológico, os orgasmos múltiplos, indistintos, a maior parte das mulheres poderia encontrar nelas mesmas a posse da razão, do desejo, da cidadania e da individualidade' (Haraway, 1991: 359).

Precisamos perguntar porém se isso não resulta em um molde masculino para uma 'sexualidade feminina' que bem poderia estar correndo para outro lugar. Foucault critica de maneira severa a extensão em que tais projetos de liberação revelam a subjeição que eles ostensivamente contestam. Para ele os orgasmos são duvidosos como a chave para a auto-apropriação. Como Pat Califia, ele está mais interessado no que ele chama de orgasmo sado-masoquista, uma intensidade de sexo genital desconectado e comprometido somente com o desmantelamento da subjetividade. Toda a sexualidade tende para essa cibersexualidade: uma questão de cuidado na construção de cenas, o ajuste de contextos, a perfeição do toque, a construção da comunicação.

Não é a orgia, mas o orgasmo é que acabou. Não que as intensidades, uma vez buscadas através de sexo, estejam desaparecendo. Longe disso: elas apenas começaram. 'A apologia ao orgamos, feita pelos reichianos, ainda me parece uma maneira de determinar possibilidades de prazer no sexual', escreve Foucault (Macey, 1994: 373). O clímax é próprio da integridade orgânica; oragasmo é o que os organismos fazem: 'Eu desmembrei seu corpo. Nossas mãos carinhosas não estavam juntando informações ou escondendo segredos, elas eram tentáculos de invertebrados desatentos; nossas barrigas, flancos e coxas estavam inclinados em um contato que apreende e mantém-se em nada. O que os nossos corpos fizeram ninguém fez' (Lingis, 1994: 61).

Desmembramento: a castração de Dionísio. Contra-memória. Esqueça para que é isso e aprenda o que isso faz. Não concentre-se em orgasmo, o significado pelo qual o sexo permanece escravizado à teleologia e à sua reprodução: 'faça de um corpo um lugar para a produção de prazeres extraordinariamente polifórmicos, enquanto, simultaneamente, separe-o da valorização da genitália, e, particularmente, da genitália masculina' (Miller, 1993: 269). Foucault fez experimentos com decomposições do corpo, desmantelamento do organismo, fez experimentos técnicos com servidão e liberação, energia e resistência em uma 'ótica sadomasoquista de multiplicação e apropriação de corpos' e da ótica de 'uma criação de anarquia dentro do corpo, onde suas hierarquias, suas localizações e suas designações, sua "organicidade", se desejar, está em processo de desintegração' (Miller, 1993: 274).

O masoquismo põe em considerável risco a antiga crença no princípio do prazer conebido por Freud. Se os processos mentais são governados pelo princípio do prazer, de tal maneira que seu primeiro alvo é evitar o desprazer e obter prazer, então o masoquismo torna-se incompreensível'. Se ambos, 'dor e prazer, não podem ser simples avisos mas, na verdade, são objetivos, paralisa-se o princípio de prazer' (Freud, 1984: 413). Contudo, na época em que escreve "O Problema Econômico do Masoquismo", Freud sabe que o masoquismo nem sempre é uma reação ao controle de tipo sádico. O masoquista não é mera vítima escravizada: esta é a 'bobagem machisita' de um discurso que não admite nada além de subjeção, uma perspectiva que não pode aceitar nenhuma outra relação (ou melhor, não pode aceitar nada além de relações). O masoquismo excede tais relações ao instituir a figura do dominador; de fato, isso vai além de todas as relações, não importa quão longe pareçam estar do aspecto paternal. Ela não é uma questão de reconhecimento, mas de sentimento: não é um desejo de ser prensado, mas um intenso desejo por comunicação, por contato, por acesso, por estar em contato. O masoquista 'usa o sofrimento como uma maneira de constituir um corpo sem órgãos e levar adiante um plano de materialização do desejo' (Deleuze e Guattari, 1988: 155).

'Parem de confundir servidão com dependência', escreve Jean-François Lyotard. A 'questão da passividade não é uma questão de escravidão, a questão da dependência não é justificativa para ser dominado' (Lyotard, 1993: 260). Confundindo as coisas, os circuitos e conexões são trazidos de volta às relações de superioridade e inferioridade, sujeito e objeto, dominação e submissão, atividade e passividade... e esses tornam-se pólos congelados de uma oposição que captura as reviravoltas e recuperam seus discursos.

Beba-me, devore-me, use-me...

"O que ela quer, quem pergunta isso na exasperação e aridez de cada parte de seu corpo, é a mulher-orquestra? Será que ela quer se tornar uma amante e tudo o mais? Vamos lá! Ela quer que você morra com ela, ela deseja que os limites de exclusividade retriccedam, sejam arrastados através de todos os tecidos, da imensa tactilidade, do tato de qualquer coisa que se feche em si mesma, sem que se torne uma caixa, e do que quer que, sem parara, nos leve além de nós mesmos sem se impor como conquista." (Lyotard, 1993: 66)

Tatilidade imensa, contato, possibilidade de comunicação, um fechamento sem limites: um circuito, uma conexão. 'O que interessa aos praticantes de sadomasoquismo é que o relacionamento seja ao mesmo tempo regulado e aberto', escreve Foucault: uma mistura de regra e abertura'. Uma incessante ampliação: a procura do corpo é sua própria saída. Importa tornar-se 'aquilo que não é único'; tornar-se uma mulher que 'tem órgãos sexuais por toda a parte' (Irigaray, 1985: 1i). É isso que significa sair da carne? Não é apenas deixar o corpo, mas ir além do orgasmo, a fim de alacançar a 'exultação de um tipo de autonomia das nossas menores partes, das menores possibilidades de uma parte do nosso corpo'.

'Use-me', escreve Lyotard, é 'uma afirmação de vertiginosa simplicidade, não é mística, mas materialista. Deixe-me ser sua superfície e seus tecidos, você pode ser os meus orifícios, minhas mãos e minhas membranas, nós podemos nos perder, deixe de lado o poder e a esquálida justificativa da dialética da redenção: nós morremos. Não diga, deixe-me morrer em suas mãos, como Masoch disse' (Lyotard, 1993: 65).

'O castigo sado-masoquismo da prostituta faz com que você sofra 'algo' em sendo seu cliente. Trata-se de algo que não tem nome. Está além de amor e do ódio, além dos sentimentos, é um contentamento selvagem, misturado à vergonha, o jogo de submeter (-se) a algo e suportar o golpe de pertencer a alguém, sentindo a si mesmo libertado da liberdade. Isto deve existir em todas as mulheres, em todos os casais, em um menor grau ou inconsciente. Isto é uma droga, é como ter a impressão de que alguém está vivendo a mesma vida muitas vezes, demasiadamente de uma só vez, com uma intensidade incrível. Os alcoviteiros, aplicando esses castigos, experimentam este "algo". Estou certo disto.' (Lyotard, 1993: 63)

Trata-se da 'coisa sem nome' de Foucault, algo inútil, fora de todos os programas de desejo. É o corpo totalmente maleado pelo prazer: 'algo que se abre, que aperta, que lateja, que pulsa, que espanta' (Miller, 1993: 274). Quando ocorre, escreve Freud, é 'como se o vigia de nossa vida mental fosse tirado de ação por uma droga' (Freud, 1984: 143).

'Eu despi o desejo e a pessoa que você era como nos despimos de colares e correntes' (Lingis, 1994: 61). O que permanece é máquina, o inumano, algo além de emoções, além da sujeição: 'a ilusão de não ter chance, o pavor de ser pego' (Califia, 1993b: 108).

Pat Califia: 'Ele quis... tudo. A consumação, ser usado, ser completamente usado. Ser absorvido pelos seus olhos, sua boca, seu sexo, tornar-se parte de sua substância' (Califia 1993b: 108)

Foucault descreve as pessoas envolvidas com sadomasoquismo como 'inventando novas possibilidades de prazer com partes estranhas do seu corpo... é um tipo de criação, uma aventura criativa, a qual tem como uma de suas partes principais o que eu chamo de dessexualização do prazer' (Miller, 1993: 263). Sadomasoquismo é uma questão de multiplicação e apropriação de corpos', ele escreve: trata-se de 'uma criação de anarquia dentro do corpo, em que suas hierarquias, suas localizações e designações, sua "organicidade", se quisermos, estão em processo de desintegração' (ibid.: 274). Já as 'práticas de penetração com o braço são práticas que alguém pode chamar de desvirilizantes, ou, dessexualizantes. São, na verdade, extraordinárias falsificações do prazer' (ibid.: 269), dores levadas ao ponto de se tornarem, também, um êxtase absoluto. Agulhas através da carne. Cera de velas ainda quente escorrendo sobre grampos de alicates. A mais extraordinária pressão nos músculos ou tecidos conjuntivos. A fronteira entre a dor e o prazer foi atravessada' (ibid.: 266).

'Mesmo sofrendo, por um lado, e tendo prazer, por outro: esta dicotomia pertence à ordem do corpo orgânico, da suposta instância unificada' (Lyotard, 1993: 23). Agora há, pois, um plano, um platô lânguido. Os altos e baixos convergem para um mar calmo, um oceano silencioso. Encontram seus limites e se tornam insípidos: chegam ao ponto de fusão.

'Não sabemos o que um corpo pode fazer', mas isso já é uma outra razão do 'porquê nós temos que nos libertar da sexualidade' (Macey, 1994: 373), de deixar o corpo aos seus próprios artifícios, de despi-lo de seus controles formais, invalidar seus mecanismos de auto-proteção e segurança (que ligam a intensidade ao prazer à reprodução).

Que há outras maneiras, outros procedimentos, além do masoquismo, certamente outros melhores, é algo paralelo a essa questão; é suficiente dizer que, para alguém, este seja um procedimento seja agradável(Deleuze e Guattari, 1988: 55). Custe o que custar o importante é acessar o plano. As necessidades não admitem proibição. A necessidade tem sua álgebra, a velocidade, seu diagrama.

Foucault não tinha dúvidas que certas drogas rivalizavam com os 'prazeres intensos' da experimentação sexual. Das drogas dos anos 90, o ECSTASY e o CRACK, foram ambas descritas como 'melhores que o sexo', enquanto o SPEED e PROZAC tendem a um efeito anorgásmico. Toda 'engenharia do corpo' tem algum componente químico. Felix Guattari aponta que 'certas síndromes anoréxicas, sado-masoquistas, etc funcionam como um auto-vício', pois 'o próprio corpo secreta suas endorfinas, as quais, você sabe, são 50 vezes mais ativas que as morfinas' (Guattari, 1989; 20). Se o orgasmo indica prazer, 'as yellow pills ou a cocaína permitem que você exploda e difunda isso por todo o seu corpo; o corpo se torna um lugar de prazer total' (Macey, 1994; 373). Neste plano, o corpo se esquece de si mesmo, se retira para ser uma só coisa.

Estar fora de ordem e sob um controle que, 'em vez de agir permanece em guarda, um controle que bloqueia o contato com o lugar-comum e permite que esses contatos de tipo mais súbitos e raros, expõe o fio nos põe em incandescência todavia nunca nos separa.' (Artaud, 1965: 33).

Num caminho medido em escala fractal, 'pode-se estabelecer um tipo de ordem ou de progressão aparente progressão favorável aos segmentos em que descobrimos nosso vir-a-ser'. Trata-se de caminho em que 'começamos e descobrimos nosso devir- mulher' (Deleuze e Guattari, 1988: 277), o qual já é uma questão do devir-criança, -animal, -vegetal, ou -mineral; do vir-a-ser uma formações molecular, uma formação elementar qualquer. As fibras nos conduzem (ibid. 272) a mais caminhos que só uma.

É através de processo de deliberação que o corpo começa a separa-se de própria autoridade externa: da posse e da auto-posse, do controle e do autocontrole. A carne aprende. Mas não é um problema de educação, que é sempre uma questão de restaurar informações passadas, uma lembrança de alguma transcendência originária da autoridade. O referido aprendizado é um processo que consiste em esquecer o passado, é o abandono da verdade e o desmembramento da autoridade. Enquanto é 'necessário cavar profundamente, a fim de que se mostre como as coisas são historicamente contingentes, para tal e tão inteligível porém não necessária razão', também é o caso de se 'pensar que o que já existe ainda não explorou todos os espaços que podem ser explorados'. A atenção deve ser voltada para o futuro. 'Deixe-nos fazer um desafio evidente, fora de questionamento: "em que podemos jogar, e como podemos inventar um jogo?"' (Miller, 1993: 259).

Foucault lança-se no sexo virtual: o cenário do ciberespaço, a última novidade em termos de alucinações consensuais. Poderia ser, ele pensa, 'maravilhoso ter o poder, a qualquer hora do dia e da noite, entrar em um lugar equipado com todo o conforto e com todas as possibilidades que um indivíduo possa imaginar, e encontrar lá um corpo imediatamente tangível e fugaz' (Miller, 1993: 264). Mas não porque, como William Burroughs enfatiza, agora 'você pode "deitar" com a Cleópatra, Helena de Tróia, Isis, Madame Pompadour, ou Afrodite. O importante é que, agora, você pode "deitar" com Pan, Jesus Cristo, Apolo, ou com o próprio Demônio. Qualquer coisa que você gosta, também gosta de você, quando se pressiona os botões' (Burroughs, 1985: 86).

Escolha o ciborgue, mais um objeto opcional de desejo.

Faça conexões, acesse a zona, selecione um avatar qualquer para encher o seu cenário: não resista, torne-se um ciborgue também. Alguns humanos se trancam, mas um replicante se move. Dependendo do tempo disponível, o ciborgue que você se tornará será mais ou menos sofisticado ou amplo; será mais ou menos conecta ao seu sistema nervoso central; mais ou menos relacionado à sua própria abstração e à fase em que ambos se espalham. Seja o for, isso todavia será pós-humano, coisa que você sempre o foi.

Foucault mergulha de cabeça nas saunas de São Francisco: 'Lá, você conhece homens que são para você o que você é para eles: nada além de um corpo com combinações e possíveis produções de prazer. Você deixa de ser prisioneiro do seu próprio rosto, do seu próprio passado, de sua própria identidade' (Miller, 1993: 264).

Não há escapatória para uma região de livre escolha. Uma deliberação não é livre nem determinada: existe como o Tao. Também é impensável para uma autoridade constituída em termos de dominadores e escravos, de autônomos e autômatos, dominação e submissão, uns e outros, uns e dois... É isso que Lyotard chama de 'bobagens machistas' de um discurso que não admite nada além de sujeição, de uma perspectiva na qual não pode ser aceita nenhuma outra relação (ou melhor, não se pode aceitar nada além de relações).

Sabendo que tudo isso é um video game, fica mais difícil seguir jogando.




Traduzido por Tatiana Rodrigues, com a colaboração de Carolina Ouriques. Revisão de Francisco Rüdiger.




Sadie Plant é autora de vários livros, dos quais há tradução para o português de "Mulher Virtual".



* "Coming across the future". In Joan Dixon & Edward Cassidy (orgs.): Virtual futures: cyberotics, technology and post-human pragmatism. Londres: Routledge, 1998.




Volta à página inicial