Relacionamentos Sociais e Identidade On-line e Off-line

Don Slater


A própria idéia de aproximação, em termos de uma distinção precisa entre o conectado (on-line) e o desconectado (off-line), tem dado à pesquisa nessa área um perfil peculiar. Em contraste com a típica recepção receosa das novas tecnologias de mídia de outrora (telefone, televisão), temerosa dos seus maus efeitos nas identidades e nas relações sociais, a Internet oferece a possibilidade de relações e identidades inteiramente novas, constituídas dentro da nova mídia e aparentemente não-medidadas. A esse respeito, essa nova mídia vem sendo estudada menos enquanto mídia que é usada dentro de práticas e identidades sociais já existentes, e mais enquanto um novo espaço social, que constitui suas próprias práticas e relações. A pauta da pesquisa, deste ponto de vista, dirige o foco não às características e uso dessa mídia enquanto meio de comunicação, mas, preferencialmente, nos tipos de vida social e culturas que ela é capaz de sustentar, e como essas específicas socializações on-line se relacionam com o “mundo off-line”. Embora mais ampliado, o lado on-line dessa distinção frequentemente tem sido compreendido não simplesmente em termos do que seus inquilinos fazem, mas enquanto algo como uma cibercultura unificada em padrões sociais que parecem fluir automaticamente desde a natureza da própria tecnologia.

Esse tipo de linguagem caracterizou os recentes textos especializados em Internet, para maior ou menor alcance, em meados dos anos 1990, apesar de hoje estar em declínio. Como resultado, a obrigação desse capítulo é não apenas apresentar o que tem sido “descoberto” sobre as diferenças entre on-line e off-line, ou os impactos de um sobre o outro. Melhor ainda, necessita mostrar como e por que essa distinção tem permeado as pesquisas sobre a nova mídia, e como e por que ela vem sendo desconstruída. Ou seja, a distinção não é sustentável e é provavelmente mais sintomática de um período histórico do que proveitosa enquanto uma presunção metodológica. Além disso, é possível que o motivo pelo qual as distinções não se sustentam tenha relação com as atuais mudanças na natureza e localização social da nova mídia assim como elas estão relacionadas às fraquezas analíticas da própria distinção.

Distinguindo a vida on-line

Christine Hine (2000) difere entre considerar a Internet uma cultura e entendê-la como um artifício cultural. Esta última perspectiva, como foi desenvolvida através das ciências sociais e tecnologia, envolve a investigação da co-configuração dos objetos e contextos sociais e, por conseguinte, a consideração de como a tecnologia pode ser interpretada, assim como seus potenciais sociais e tecnológicos. Nesse caso, um está visando a forma como um meio de comunicação é usado dentro de um mundo social off-line. Por outro lado, estudar a Internet enquanto cultura significa considerá-la como uma localização social na sua totalidade, mais do que como um objeto complexo dentro de outra, contextualizando espaços. Isso significa perceber as formas de comunicação, socialização e identificação que são produzidas dentro desse espaço social, e como elas se sustentam através das fontes disponíveis no ambiente on-line. Mark Poster (1995a: 1995b) fez uma distinção detalhada entre a internet enquanto ferramenta e, portanto, parte de uma orientação modernista à nova mídia, enquanto algo usado instrumentalmente dentro de projetos sociais mais amplos; e a Internet enquanto um espaço pós-moderno de transformação, no qual o sujeito da comunicação é transmutado dentro do processo da comunicação. Poster contrasta, de forma proveitosa, os diferentes usos e mídias dentro da Internet (e-mails usados no escritório não têm as mesmas implicações [na questão da identidade] que um envolvimento intenso em uma MUD [calabouço multiuso, na sigla em inglês]), mas sua distinção, como a de Hine, implica em que os dois analistas e participantes possam se orientar sozinhos ao que pode ser, de qualquer forma, apenas mais um meio como se fosse um importante espaço ou ciberespaço social. Existe um forte argumento dizendo que, apesar de a mídia também parecer constituir novas formas e espaços de socialização, ainda que virtuais (McLuhan, 1974: Standage 1999), elas foram rapidamente absorvidas pelas atividades cotidianas como utilitários, ou que lhes faltavam algumas qualidades que renderam à nova mídia mais capacidade de sustentar complexos espaços sociais. Certamente, essa é a característica da Internet – mistificada como “ciberespaço” – que foi considerada única e revolucionária entre as novas mídias, e, portanto, sua característica-chave a ser investigada. Ela não é um meio e sim um lugar para estar ou habitar.

Ironicamente, estudos recentes sobre comunicações computadorizadas enfatizaram como sua aparente falta de marcas on-line assim como identidades e ambientes off-line resultados em uma associação anárquica e empobrecida, que se reflete na classe social pobre e em esforços grupais (veja, por exemplo, Baym neste volume; Hine, 2000; Jones, 1995). A ironia é que a separação do contexto off-line é precisamente o que fundamentou as maiores reivindicações pela socialização on-line tanto como um veículo para libertação da classe social como para facilitar os trabalhos em conjunto. Os últimos são exemplificados não apenas pelas mundanas intranets, mas também pelos programas de compartilhamento de dados e sites que permitem baixar programas e arquivos que levam o funcionário da Microsoft a admitir que a Linux poderia mobilizar o “QI combinado da Internet” para resolver seus problemas técnicos.

A reclamação de que a nova mídia sustenta espaços sociais on-line que podem ser habitados e investigados relativamente de forma independente das relações sociais off-line vem avançando em diversos patamares, desde os primórdios da Internet. Podemos, então, resumir em quatro propriedades: virtualidade, “espacialidade”, desterritorialização, descarnamento. Cada uma enfatiza uma radical desconjuntura entre relacionamentos e identidades on-line e off-line. De qualquer forma, precisamos estar livres do princípio segundo o qual cada uma dessas dimensões tem sido frequentemente apresentadas como uma caracterização das novas mídias: elas são geralmente colocadas como se fossem propriedades intrínsecas das próprias novas mídias, e então, maneiras de investigar suas especificidades como novos meios da vida social. O problema, como iremos discutir mais tarde, é que elas atendem a características específicas da nova mídia, independentemente dos usos sociais particulares e redes nas quais eles estão enraizados, como coisas em si mesmas fluem naturalmente de cada uso (ou efeito) particular. Duas óbvias falácias surgem daqui. A primeira é um determinismo tecnológico. A segunda é uma suposição de que a Internet seja um fenômeno unificado, enquanto que isso é na verdade uma diversidade de tecnologias de software e hardware que podem ser utilizados diferentemente e em diferentes combinações. Bem simples: o uso de ICQ ou outros sistemas de chat por pais indonésios em comparação com o uso dos adolescentes americanos é determinado mais do que simplesmente por tecnologia; uma vez que os mesmos adolescentes americanos ou pais indonésios podem, contrariamente, considerar o ICQ um website completamente diferente com relação à virtualidade, “espacialidade” e por aí vai.

Virtualidade

Primeiro, as idéias de virtualidade e simulação evocam a construção de um espaço de representação que pode ser relacionado ao “como se” elas fossem reais, o que então causa a separação (ou mesmo reposição) do “realmente real”. O que irá contrastar com diversos termos que podem caracterizar o mundo off-line: os principais sendo “real”, “verdadeiro” e “material” (Shields, 2000). O ponto extremo da virtualidade, que é muito exercitado pela literatura atual, é a idéia da “realidade virtual”: um espaço de representações no qual todos os sentidos são expostos para coordenar representações de forma que essa experiência seja completamente imersiva (não confundir com uma experiência real) e o participante pode responder à simulação como se fosse o mundo real que se comporta consistentemente, de forma regrada e não-arbitrária. Paradoxalmente, essa noção literal da realidade virtual enquanto uma multimídia imersiva (por exemplo, Springer, 1991) foi contemporânea de uma Internet cuja virtualidade era quase inteiramente textual, imersiva não pela sua natureza sensorial, mas pela suas propriedades intelectuais e sociais: sexo cibernético, por exemplo, é considerado realidade virtual não porque literalmente simula experiências sexuais, mas porque permite a absorção de narrativas interativas baseadas na quase presença do outro e na participação de ambos na construção de um texto. Além disso, essa idéia de que o mundo on-line é um espaço virtual foi amplamente exemplificada por MUDs e MOOs, que, de fato, descendem diretamente da fantasia dos RPGs (Role Playing Game, jogo em que se interpreta um personagem) do mundo off-line, nos quais um número limitado de regras pode constituir um mundo restrito e compartilhado, e gera uma infinidade de comportamentos imprevisíveis, os quais, no entanto fazem sentido dentro de uma consistente realidade compartilhada (Fine, 1983). Podemos, também, comparar a noção de virtualidade com as teorias de realismo no cinema, que também são focalizadas na geração textual de mundos inteiramente consistentes e, por isso, absorventes (Kuhn, 1982; MacCabe, 1985).

Portanto, o foco moveu-se do virtual enquanto simulação para o virtual como um espaço social coerente, e no qual novas regras e formas de ser e se relacionar podem emergir justamente devido ao afastamento dos constrangimentos do “realmente real”. Podemos complementar a teoria através dos termos restantes: espacialidade, desterritorialização e descarnamento.

Espacialidade

A aparente habilidade da nova mídia em construir espaços é intimamente relacionada à virtualidade. O “Ciberespaço” detém a idéia de uma colocação social que existe puramente dentro de um espaço de representação e comunicação – os programas, a rede – e, portanto, não mapeia claramente espaços completamente off-line. Ao mesmo tempo, o próprio ciberespaço pode, e deve, de fato, ser delineado.

Virtualidade é uma experiência espacialmente ambígua. Onde está o ciberespaço? Ele existe inteiramente dentro do computador, distribuído através de redes cada vez mais complexas e fluídas. Uma experiência inerente aos primeiros usuários da Internet foi a dificuldade que clicar em um link de hipertexto poderia levá-los a um arquivo que se encontrasse em qualquer lugar do mundo – no seu próprio computador ou em outro hemisfério – e não fazia diferença: um mundo novo e integrado estava sendo descoberto, e suas coordenadas se relacionavam com um mundo físico diferente. De fato, a espacialidade do ciberespaço reside amplamente nas conexões que fazem à rede. Dessa forma, os próprios limites da rede são ambíguos e convergem com outras tecnologias, relações e informações. Por isso algumas literaturas preferem falar da “matriz”, para indicar um maior espaço eletrônico e informacional, consideravelmente maior que a Internet e que une menos facilmente o on-line e o off-line. As qualidades espaciais do mundo on-line são, em todo caso, altamente variáveis e contraditórias (Craig, 1997). Por exemplo, de um lado existe uma ênfase na sua complexidade, suas aparentemente inesgotáveis cadeia de movimento e velocidade, a impossibilidade de ser mapeada (Dodge e Kitchen, 2000), tudo isso parece fazer do mundo on-line um espaço para explorar ou descobrir, mas nunca para compreender. O que realça as metáforas do mundo on-line como um verdadeiro novo domínio. Por outro lado, as representações através das quais o virtual é construído e experimentado são famosas por serem simples e domesticadas. Longe as abstratas representações de dados que habitavam a visão original de ciberespaço de Gibson (1984), o real virtual é descrito através de termos como salas, lugares e espaços; e acessado através de browsers e portais, com a intenção de tornar o espaço coerente em termos de interesses individuais e amplamente comerciais.

Por fim, a própria rede de organização da nova mídia implica em um novo tipo de espacialidade, que poder ser separada da por hora transformativa organização social off-line. Baseado mais na comunicação ponto-a-ponto do que em modelos de ampla difusão, a nova mídia aparece tanto como um meio não hierárquico, quanto como uma fuga das hierarquias off-line. Parece ser um inexorável empurrão tecnológico na direção de conexões horizontais incontroláveis: por exemplo, é o surgimento de uma rede de cooperação na qual as conexões são inteiramente distribuídas aos usuários individuais, ultrapassando qualquer instituição central de organização social e tecnológica e, então, qualquer localização no mundo real que se sustente.

Desterritorialização e comunidade

A característica mais óbvia das comunicações mediadas por computador é que elas permitem a comunicação entre pessoas que estão espacialmente separadas. O fator mais importante em uma sala de conversação não é em que lugar do mundo você está, mas em como está usando as facilidades comunicacionais de que dispõe. A irrelevância da posição geográfica na comunicação pela Internet é freqüentemente referida como “desterritorialização”. Por exemplo, usando MUD ou ICQ a pessoa é imediatamente separada do local onde se encontra (desterritorializada), o que se torna irrelevante para a interação. Ao mesmo tempo, o uso de MUD e ICQ constitui um novo contexto comunicacional. Eles são habitados por pessoas que podem estar vastamente dispersas, mas compartilham um contexto, regras e, freqüentemente, uma história de comunicação, e podem propriamente tratar suas interações como reais, como tendo conseqüências (pelo menos no contexto da Internet), e como tendo valor.

A noção de desterritorialização surgiu primeiramente para e do lado de fora dos debates da nova mídia, enquanto uma caracterização das propriedades centrais da modernidade. No trabalho de Giddens (1990) e Thompson (ver também Slevin, 2000), em particular, essa noção está ligada ao desenvolvimento de duas comunicações relacionadas: a compreensão do tempo e espaço, por onde a velocidade de interconexão (tanto por correio como por mensagem eletrônica instantânea) diminui cada vez mais a efetiva distância social entre as partes conectadas; e o distanciamento do tempo e espaço, na qual hora local e espaços são moldados para uma progressiva homogeneização global com relação a unidades de medida que coordenam atividades altamente dispersivas, de modo que alcancem um ritmo unificado (tentativas de criar um único “tempo da Internet” são uma versão bastante literal dessa idéia, e que característica uma iniciativa da fabricante de relógios privada Swatch). Na verdade, pode ser argumentado que o modelo de maior prestígio de para entender a Internet nesses termos, há muito já havia previsto isso: a idéia de “aldeia global” de Marshall McLuhan (1974). Segundo ele, a mídia eletrônica (rádio e televisão no seu tempo) criou uma sensação de simultaneidade: um evento transmitido pela TV acontece em todos os lares, que estão com o aparelho ligado, ao mesmo tempo. O que, de acordo com as propriedades da mídia específica, produz novas formas de envolvimento e participação, nas quais, assim como na aldeia, todos podem presenciar o mesmo evento ao mesmo tempo. O tempo foi apagado e a separação espacial deixou de ter impacto na comunicação. A Internet aderiu à interatividade das relações sociais on-line à simultaneidade da televisão (Kitchen, 1998:15). A aparente aniquilação do espaço on-line promove a sensação de co-presença, ou seja, as pessoas podem estar presentes umas às outras de forma a corresponder às interações face a face. Para estender a co-presença como função da tecnologia, faz sentido ser socialmente estabelecida através de convenções comunicativas específicas da mídia, como flamings , smilies ou netiquette .

A noção de desterritorialização deu vazão a uma das maiores reivindicações sobre a vida on-line: a nova mídia pode sustentar comunidades cuja existência é ampla ou completamente virtual. Rheingold (1993), por exemplo, considera que o ciberespaço é capaz de constituir toda a diversidade da interação off-line e mutações:

Não existe algo como uma única, monolítica, subcultura; é mais como um ecossistema de subculturas, algumas frívolas, outras sérias. A fronteira do discurso científico está migrando para as comunidades virtuais, onde se pode ler, antes da impressão relatórios eletrônicos de biólogos moleculares e cientistas cognitivos. Ao mesmo tempo, ativistas e educadores utilizam o mesmo tempo como ferramenta política. Você pode usar uma comunidade virtual para arranjar namorado, vender uma máquina de lavar, publicar um romance ou conduzir uma reunião.

A desterritorialização pode ser vista como altamente positiva de diversas formas. Sobretudo o processo de desterritorialização pode ser interpretado como algo que liberta do confinamento das localizações imediatas, capacitando os participantes a se conectarem com qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, baseadas em prazeres e interesses em comum. Políticas e socializações especificamente pós-modernas foram postas em vigor nessas comunidades eletivas, sociedades móveis ou novas tribos (Bruman, 1990; Maffesoli, 1996). Essa capacidade da comunidade on-line pode ser pode ser variadamente estruturada: como a que transcende e supera a fragmentação e figura da vida off-line contemporânea através do equivalente pós-moderno das comunidades utópicas; como revigoradadora de qualidades como a democracia, debates e auto-organização na vida off-line (em geral, existe uso da Internet para promover a participação política, o conhecimento e a responsabilização), como parte da vida off-line que clama por maior realidade ou valor; ou, negativamente, contribuindo com o processo que tira da sociedade off-line do resto de sua comunidade (substituindo, descarnando, mediando e provocando crescente fragmentação).

Descarnamento e Identidade

Assim como parece que, ao ficar on-line, nos separamos de um lugar, parece que nos separamos do corpo. Descarnamento significa que a identidade on-line de uma pessoa é, aparentemente, separada da sua presença física, uma condição associada a duas características: textualidade e anonimato. Apesar de novos canais de comunicação como voz através de IP e vídeo-conferência estarem se tornando disponíveis na Internet, consequentemente, a maior parte da comunicação entre as pessoas tem sido textual, no máximo complementada por alguns gráficos. Em um canal de conversa, uma pessoa é conhecida pelos outros apenas através do que ela escreve e suas afirmações sobre ela mesma não podem ser verificadas ou contraditas por seu corpo e expressões. De fato, a frase “você é o que escreve” resume a idéia de que a performance de identidade on-line de uma pessoa deve ser considerada, somente por que não existe outra informação para avaliar. Essa farsa encobre algumas marcas visíveis como sexo, raça e idade, que, nas interações off-line, fixam identidades nos corpos. Ao mesmo tempo, a presença on-line é aparentemente descarnada na idéia generalizada de que ela pode ser separada de outras formas, nas quais a presença off-line está presa de maneira estável e responsável: nomes, endereços, relacionamentos do passado e biografia, uma vez que elas são fixadas pela lei, por credenciais, parcerias (incluindo casamentos). Simplesmente, as identidades on-line são potencialmente anônimas em relação às off-line, para as quais seria difícil traçar a performance on-line de alguém.

Dessa forma, muitos experimentos e discussões sobre as relações on-line são estruturados unicamente pela questão da decepção e da autenticidade: baseado em que alguém deve acreditar que a pessoa on-line é realmente o que diz ser? E pode uma relação galgada nesse grau de dúvida ser levada a sério? A posição alternativa, que caracteriza o “ciberlibertacionismo”, que dominou boa parte das recentes experiências sobre o descarnamento da nova mídia, é tratá-la como uma oportunidade de desconstruir a noção de autenticidade, particularmente no limite em que isso envolve fixar a realidade das entidades através da corporização das mesmas (uma manipulação que é fundamental para pensamentos primários como o racismo e o sexismo). Nesta leitura, a nova mídia dá espaço para quatro tipos de separação e liberação das identidades e relacionamentos anteriores: primeiro, é possível representar a identidade que bem entender (eu posso ser um homem, uma mulher, ou um sapo extraterrestre); segundo, é possível criar novas identidades que são inconcebíveis em mundos off-line, que são muito controlados social e corporalmente (eu posso ser um dos sete sexos no Lamba-MOO); terceiro, por serem textuais, as presenças on-line são também performances evidentes por si mesmas, e, portanto, é possível ser liberto do conceito de autenticidade própria e forjar outras éticas e políticas naquela performance; e, finalmente, estas éticas e políticas, em sua versão mais prevalente, são levadas a cabo por andróides ou identidades híbridas: elas são definidas não por uma individualização fixa, mas por fluidez e interconexão. O ciberespaço aparece como o lugar de uma sociologia do futuro, na qual identidades são móveis, fluidas e abertamente experimentadas mais como performáticas do que como autênticas.

Este programa é incompreensível se não for relacionado a tradições pós-estruturalistas, particularmente em sua conjunção com o feminismo. Assim, os espaços da nova mídia apareceram como locais para praticar e observar as operações de desconstrução e performance que os prenunciaram, como discutiremos abaixo.

Investindo na vida on-line 

Todas essas necessitam de crítica e qualificação cuidadosas, como iremos argumentar. De qualquer forma, é também crucial reconhecer que a distinção on-line/off-line que descrita não é simplesmente acadêmica: tem também um status político e social poderoso. Um amplo espectro de componentes têm investido consideravelmente em estabelecer a mídia como um espaço social. A própria noção de "ciberespaço" foi uma tela na qual se projetaram muitos medos e esperanças.

Primeiro, dados históricos sobre os primeiros usuários da Internet revelam um estranho mundo contra-cultural, que compreende remanescentes e ecos da contracultura dos anos 60; a cultura "nerd" emergente das faculdades de engenharia e ciência da computação, e uma série pouco usual de subculturas (incluindo a do videogame) (Kitchen, 1998; Turkle, 1984). Essa caracterização das origens da cibercultura pode gerar dúvidas com relação à distinção on-line/off-line. A cibercultura não se libertou das características intrínsecas da nova mídia, mas fez surgir possibilidades de virtualidade que foram reconhecidas por culturas de jogadores (jogos como Doom e Quake, mas também pré-Internet, experiências em BBS (do inglês, bulletin board system) de poker on-line e, antes disso Dungeons and Dragons); ficções científicas e fantasia (ciberpunk), moda nas subculturas de música e formas de se vestir como techno, rave, pós-punk grunge e música feminista (como as Riot Girls, garotas encrenqueiras); novos modelos de organização política descentralizada; e muito mais. “Cibercultura” nunca foi uma cultura on-line qualificada, mas um amontoado muito diversificado de conjunturas culturais, nem todos originados na nova mídia.

A que esses fios perdidos de cibercultura certamente convergiram foi um sistema de valores que se focou em uma larga cadeia de (muitas vezes incompatíveis) liberdades. O liberalismo da internet envolveu a reivindicação de liberdade total em dois sentidos: o direito cívico de qualquer tipo de discurso, interação em associação, em oposição a toda censura (que, diferentemente do que na vida on-line, parece ser tecnologicamente garantido sob a noção de que a rede trata a censura como “barulhenta” e que anda em círculos, se considerando invulnerável às fontes off-line de regulamentação e proibição); e a idéia da circulação livre de coisas, sem os convencionais preços e direitos autorais (Ross, 1998; Slater, 200b). Essa última é exemplificada em algumas noções de que a internet seria um “presente” econômico (uma onda inexorável de futuro que poderia engolfar a antiga economia off-line e.g., Barbrook, 1999), e em desacordo com os direitos autorais intelectuais a favor de sistemas abertos e de compartilhamento. Assim como em qualquer liberalismo, a aversão da rede pode trazer consigo populismos das extremas direita e esquerda em uma oposição combinada a qualquer forma de hierarquia, governamental ou corporacional. Não poderia haver mais claras e selvagens evocações do mundo on-line enquanto um lugar de liberdade e alteridade do que na famosa Declaração de Independência do Ciberespaço de John Perry Barlow ou a luta contra o Ato de Decência nas Comunicações. Não é surpresa que esse liberalismo, assim como muitos outros anteriores (Brown, 1997; Ross, 1998), se viu como se estivesse habitando um novo território fronteiriço Wilde West, abraçando a causa para defender um novo espaço (Rheingold, 1993, subtitulou seu livro Homesteading on the eletronic frontier ). Ambos foram desgovernados (ou auto-governados) e em princípio ingovernável por nenhum de seus próprios habitantes.

Segundo, o ciberespaço como uma diferente conversão com outra pauta: a nova economia e a desmaterialização dos fluxos e relações econômicas. Novamente, é irônico que, como os pós-modernos e consultores de negócios, e as figuras estranhas entre eles como em Wired de Kevin Kelly ou Demo de Geoff Mugan, todos poderiam afirmar que a nova mídia constitui um espaço de vanguarda socioeconômico nos quais os princípios do futuro podem ser discernidos: conectividade (ou “conexidade”, como descreveu Mugan (1998)), rede, desintermediação, desmaterialização, etc. o on-line viria para tomar conta e superar o off-line.

Terceiro, como indicado acima, a distinção on-line / off-line oferece o espaço para uma exploração prática ou mesmo realização de uma trajetória intelectual que desenha o pós-estruturalismo, pós-modernismo e (pós) feminismo. A ordem é desconstruir a noção do real e das identidades autênticas (particularmente noções que as ancoram na natureza, razão ou corpo) em favor de um modelo de identidade como performance. Como corolário, tem geralmente envolvido uma abrangência de descentralização ou fragmentação: se um modelo profundo das identidades reais gerado por uma realidade central é rejeitado como opressivo e falso, então, embarcamento de identidades fluidas, definidas por associações transitórias, conexões e limites constituem tanto uma estratégia político-ética como um novo tipo de verdade. Por exemplo, Butler (1990; 1993) e Haraway (1990) estão preocupados principalmente com a crítica da política convencional de representação que presume identidades “reais” (“mulher”, “negro”, “gay”) que podem ser mais ou menos verdadeiramente representadas (na política ou discursos). A nova mídia aponta a outras formas de representação e organização correspondente, nas quais as pessoas identificam a si mesmas através de performances estruturadas pela sua interação com outros constantemente mutáveis, e não necessariamente humanos (máquinas, redes, objetos). O “ciborgue” de Harawayé consagrado como o herói das políticas da nova mídia: uma estrutura sempre monstruosa porque desafia todas as identidades por existir, fluidamente, nas fronteiras entre elas. Um passo a frente, exemplificado pelo trabalho de Sadie Plant (1995, 1996, 1997), tem sido identificar esse modelo de identidade performativa e conectiva, e sua privilegiada representação on-line, como uma modalidade essencialmente feminina e, dessa forma, interpretar a internet como um espaço fundamentalmente como espaço feminino, uma feminilidade evocada e discernida através de metáforas de tecelagem, rede e difusão. De fato, a imaginação de Plant foi largamente uma interpretação do tipo psicanalítico feminino de Irigaray, transferido do ato de escrever para a interatividade da nova mídia. Em todas essas versões, a nova mídia parece como um espaço à parte da vida off-line, do qual podem ser tiradas a crítica do mundo convencional e a exploração de modos alternativos de ser, agir e se relacionar.

Esse investimento político-intelectual num ciberespaço separável é altamente paradoxal, particularmente no que diz respeito aos corpos e identidades. Em meio a muita celebração da desconstrução ou liberação de identidades fixas em corpos, frequentemente traçadas ao materialismo moderno e ao cientificismo, o ciberliberalismo não proclama menos que a realização técnica do sonho de esclarecimento do dualismo mente/corpo e a liberação da mente do corpo (Lupton, 1995), uma separação na qual é experimentada tanto o prazer quanto o terror (Hayles, 1999). Além do mais, na consonância do mesmo conhecimento do mundo, o ciberespaço parece prometer um domínio, ou transcendência, da mente sobre o corpo, onde se pode ser qualquer coisa que invocar ou datilografar; os limites físicos do off-line são deixados para trás e refeitos pela mente e pelo desejo. Muitos autores têm interpretado essa fantasia extravagante como compensatória e escapista, responsável pela fragmentação e perda de controle dentro da barreira social na vida das pessoas. Robins (1995:136), por exemplo, argumentou que, em muitas literaturas ciberutópicas e ciborgues, o ciberespaço aparece como um lugar intocável pela “turbulência social e política do nosso tempo”, para a qual seus habitantes respondem preferivelmente por conjurações de uma “subjetividade unificada”, comunidade fundida e não-mediada, ou então, celebrando a dissolução de todas as unidades como se fosse uma ocasião de prazer e domínio criativo fantástico e total gratificação.

Esse relacionamento paradoxal da transcendência on-line com a fragmentação off-line parece um tanto confirmada pela observação difundida de que muito, se não a maioria, do comportamento on-line não se conforma com as expectativas ciberlibertárias. Portanto, pode ser que essas desconstruções pós-estruturalistas e diagnósticos pós-modernos para os corpos e as identidades estejam corretas, assim como são esperanças colocadas em prática, as quais alteram os termos da identidade performática, mas isso não significa que os atuais usuários da nova mídia são, de fato, engajados nisso. Springer (1996) e Bassett (1997) oferecem uma análise na qual a experiência de descarnamento não só não produz identidades experimentais, mas resultados atuais em performances hiper-engendradas. Nas MUD auto-descrições analisadas por Bassett, embora tenha sido oferecido aos participantes uma larga escolha de gênero (bem mais de duas), eles quase que invariavelmente se auto-descreviam hipermasculinos ou hiperfemininos. De qualquer forma, a falta de coação na performance on-line proveu uma ocasião para realizar, na fantasia, a mais convencional aspiração off-line. O trabalho de Slater (Rival et al, 1998; Slater, 1998; 2000a e b) reaplica esse veredicto de convenção: a preocupação dos participantes numa aparentemente cena social não-constrangedora de sexualidade explícita esmaga a manutenção de uma norma off-line de pornografia (homofóbicos, mulheres com sexualidade insaciável); além do mais, mesmo onde há uma exploração criativa da sexualidade, ela foi altamente regulada e estrategicamente associada ao tema autenticidade (performance foi tratada como falsa). Claudia Springer analisa a hipergeneralização de identidades não só no ciberespaço, mas também na cultura popular, geralmente como uma reação à problematização do corpo e as sexualidade que é completamente oposta ao que é esperado pelos ciberutópicos: é precisamente porque a destruição de ambigüidades de sexo e corpos heterosexuais está no centro das identidades sociais (não apenas sexual, mas nacional, racial e assim por diante) que qualquer problematização do corpo provocará medo e retração. O corpo está, de fato, se tornando mais problemático enquanto um terreno essencial de identidade: está realmente se tornando mais ciborgue e fundido com tecnologia, revelado como performance, reconstruído através do feminismo e da nova sexualidade. É precisamente porque várias novas tecnologias, como a internet, fazem corpo problemático que as pessoas exageram, ou ainda abandonam o gênero. A resposta não é um embaraço de novas possibilidades, mas uma escala intensa através de uma renovada asserção da mente sobre o corpo. Nada disso deveria ser surpreendedor baseando-se numa leitura mais ressonável de Butler (Haraway), que é típica da maioria da literatura utópica. O trabalho de Butler, depois de tudo, pressiona a regulação da performance através de discursos e poderes, tais como a heterossexualidade compulsória, que moldam a normatividade sexualidade – gênero – sexo, e deve ser esperada tão urgentemente quanto essa estrutura regulatória é tecnologicamente desafiadora.

Virtualidade como prática

Muita discussão sobre relações sociais e identidades on-line parecem procurar uma resposta altamente generalizada e, portanto, tendem para o determinismo tecnológico: a impressão é de que, pela virtude de conectar-se, a pessoa é automaticamente envolvida em um novo processo social. Pode ser bem difícil evitar esse tipo de lógica. Por exemplo, Baym, neste volume, argumenta contra a asserção das primeiras pesquisas de que as características da terão efeitos determinantes na interação, afirmando que “existem muitos outros contribuintes para dinâmicas on-line inter-pessoais”. Essa afirmação aparentemente não controversa infelizmente esquece inteiramente o problema sobre argumentar acerca das características midiáticas: como podemos identificar as propriedades de um meio independentemente de como as pessoas usam e entendem essas facilidades? (o caso da pequena mensagem em telefones celulares contará certamente como o caso clássico: essas “características da mídia” simplesmente não existem – para os designers do telefone, as companhias de telecomunicação, analistas industriais e reguladores governamentais – até que isso foi descoberto, aparentemente espontaneamente por multidões e adolescentes.) Reduzir as “características da mídia” para uma variável entre outras antes subscreve do que desconstrói o positivismo cru dessas aproximações. Como as características da mídia podem ser contadas como uma variável alinhada com “contexto, usuários e suas escolhas” quando eu, por minha vez, não consigo identificar a forma aceita como emergida através dessas escolhas? Baym trata as percepções dos usuários de CMC e seus desejos apenas como outra variável (embora central), ao invés de como uma questão essencialmente analítica. Além disso, Baym trata o movimento das primeiras suposições até as pesquisas correntes como se elas fossem um movimento do pensamento simplista para uma apreciação da diversidade, o que também perde o ponto. O problema não é que as primeiras pesquisas sejam simplistas, e que torna-las mais complexas, adquirindo mais variáveis, poderia resolver a questão. Até certo ponto, o que precisamos são mais relatos, ricos e integrados de relações sociais, que generalizam e poderiam dar sentido a essas variáveis. Tais relatos integrados só emergirão de profundos estudos etnográficos de grupos sociais particulares com histórias reais e não podem emergir das abstratas, mecânicas e culturalmente improvisadas tipologias psicológicas e sociais de “diferenças grupais”.

O que é realmente requisitado, portanto, é um movimento de questionar sobre “a natureza dos relacionamentos e identidades on-line”, questionando a questão inteiramente diversa: “o que as pessoas fazem on-line?”: a forma já presume uma diferença e uma especificidade (presume “características midiáticas”), a última é uma investigação inacabada. Acima de tudo, deixa aberta a possibilidade de que o relacionamento entre os processos sociais on-line e off-line seja uma questão para participantes ou usuários e que eles possam vir com respostas bastante diferentes. Portanto, conceitos como “virtualidade” ou “ciberespaço” podem ser tratados como (uma possibilidade) resultado das práticas das pessoas.

O clássico exemplo dessa aproximação é também um dos primeiros: Life on the Screen (1995), de Sherry Turkle, dá uma visão do extremo envolvimento em meio ambientes simulados – MUDs e MOOs –, os quais são demarcados e contidos, mas permitem anexação intensa à identidades construídas, de si próprio e dos outros. No ponto limite, “vida real” (RL) é simplesmente uma “janela” na tela, igual em investimento e validade a qualquer vida virtual. O que é interessante sobre o trabalho de Turkle é que, largamente por virtude da sua orientação psicológica e do material baseado em entrevistas, ela foca menos em prazeres intrínsecos presumidos da mídia e muito mais em como (e, de fato, por que) os participantes constroem e investem nessas vidas on-line. Ela constrói esses envolvimentos como um estágio terapêutico e de desenvolvimento do desenvolvimento em geral da identidade e capacidade social dos participantes. O valor da participação on-line para o participante está ligado à noção de “moratória”: um tempo e, neste caso, um espaço no qual as ações são protegidas das conseqüências, comprometimentos e responsabilidades da realidade (pelo menos para os agentes de fora: existe claramente uma freqüente ética interna e intensa à cena). Os participantes na responsabilidade dela podem não estar conscientes da função terapêutica e estratégica do envolvimento dela: é simplesmente um jogo absorvente, jogado com gosto. Por outro lado, entrevistas aumentam consistentemente a noção de liberação dos confinamentos das identidades do mundo real, que são frequentemente auto-caracterizadas como inadequadas – timidez, insegurança e etc. A projeção espacial da vida on-line é um alívio.

Turkle está, portanto, observando como os participantes estão usando certos potenciais comunicativos e construindo espaços sociais de acordo com a necessidade de uma estratégica separação da vida real. O trabalho dela tem uma dimensão claramente normativa: identificação com a vida on-line tem um potencial terapêutico, mas este está inteiramente comprometido quando os participantes confundem as experimentações on-line com a vida real e como se fosse uma recusa para re-emergir. Ao contrário de muita cibercultura que recusa dar maior status ontológico, ético ou social para a “vida real”. Turkle deixa claro que a distinção é essencial para a saúde mental.

Do livro de Turkle, alguém pode construir uma opinião simples e de senso-comum sobre a relação normativa entre experiências on-line e off-line e sua valoração pelos participantes: experiências de imersão, onde identidade e sociabilidade são tratadas com muita seriedade, dando caminho para, por exemplo, mais usos de brincadeira de espaços virtuais, mas com grande ironia, menos envolvimento ou seriedade.

Nessa pesquisa, virtualidade não é a premissa ou uma característica assumida da internet, pelo contrário, é uma realização social – alguma coisa que participantes podem ou não escolher para fazer ou valorizar, e que eles precisam alcançar através de qualidades reflexivas, usando potenciais comunicativos de várias mídias de internet. A questão importante, então, aparece: porque e quando os participantes escolhem construir “ciberespaços” como separados de outras esferas de ação social, e até que extensão; como eles alcançam isso; e como eles entendem as relações asseguradas?

Devemos contrastar o mundo investigado por Turkle com a etnografia do uso da internet de Miller e Slater (2000) em relação a Trindade. Começando pelas práticas das pessoas, preferivelmente a presunções sobre características da mídia como a virtualidade, tornou-se claro que a distinção on-line/off-line teve pouco, se teve algum, papel no uso ou experiência das pessoas com a internet: as pessoas integram a variedade de mídias da internet com as identidades e práticas sociais existentes. Por exemplo, antes de usar a Internet como um veículo de desterritorialização do contexto local e da identidade Trinidadiana, as pessoas consistentemente a usam como uma maneira de não atuação e promoção de suas “Trinidadianas”; de fato, este foi um ponto para uma considerável intensificação da consciência de si mesmas como “Trini”. Os relacionamentos on-line foram frequentemente tratados como estando no mesmo plano que os relacionamentos off-line, e foram integrados com eles; ou relacionamentos (e. g. entre crianças de escola) foram semelhantemente perseguidos do off-line para o on-line e vice-versa. Por outro lado, fomos capazes de interpretar o uso Trinidadiano da Internet como parte do desejo de superar a virtualidade da Trinidade prioritária da Internet. Como um país altamente diásporo, assim como um forjado através de deslocamentos da escravidão, de trabalho artesanal forçado, com migração política e econômica, isso é sempre uma identidade que deve ser construída virtualmente, à distância, como uma idéia ou uma “comunidade imaginada” (Anderson, 1986). A internet foi amplamente experimentada como um instrumento mundano para sustentar as identidades e os relacionamentos Trinidadianos por caminhos muito concretos: uma família dispersa por vários continentes poderia usar o e-mail para manter contato constante e diário e, portanto, um senso de “sustentação do lar” que era impossível anteriormente; Trinidadianos que moram fora poderiam figurar aspectos-chave da sua cultura em chats (a piada verbal do “ ole talk ”; a sociabilidade fluida do “impor limites”). Portanto, longe de ser virtual, o uso Trinidadiano da Internet objetiva realizar concretamente uma identidade virtual previsível (Slater, 2002).

O lugar mínimo da distinção on-line e off-line na Trinidade não é um argumento contra essa distinção como tal (qualquer um pode, mais que a ciberliteratura, sustentar um argumento para isso). Preferivelmente, é um argumento segundo o qual a virtualidade é uma característica emergente possível, e não necessária, da assimilação de um novo meio feita pelas pessoas, e deve ser estabelecida empiricamente em qualquer caso dado. É também crucial reconhecer que a questão da virtualidade e do status de identidades e relacionamentos on-line é frequentemente um problema de discussão extensiva, articulada e reflexiva entre os participantes em cenários particulares da internet. Por exemplo, Slater (1998; 2000 a e b) atentou para as complexas compreensões e negociações acerca do significado e do valor dos relacionamentos e “objetos” on-line. Um dos mais lembrados estudos de caso sobre a compreensão reflexiva da ambigüidade das realidades on-line é o artigo de Julian Dibbell (1994; 1998) “violada no ciberespaço”. A apresentação feminina de um longo termo de uma participante feminina no MUD foi textualmente violada por um personagem masculino apresentado. A mulher envolvida está extremamente triste e, ao mesmo tempo, sente estranheza por estar chateada com um evento virtual, uma coisa que ocorreu em um espaço puramente textual, sem conseqüências físicas ou outras possíveis no mundo off-line. Ela está absolutamente convicta de que isso não foi uma violência real, que não deve ser tratada como tal; ela está igualmente certa de que, como um evento virtual, tem sérias conseqüências para ela e para a ordem social on-line, na qual tanto ela e quanto os outros têm feito investimentos pessoais e sociais significantes. Este envolvimento no virtual é socialmente novo e inexplorado: seu significado deve ser emoldurado tanto no seu próprio direito (muitas das discussões são sobre como o MUD responde como uma comunidade on-line) quanto em relação a outras realidades. Finalmente, o artigo de Dibbel propõe a questão da textualidade da vida on-line. Argumentos libertários são frequentemente baseados numa separação radical entre o que alguém diz/retrata e o que faz fisicamente (e. g. pornografia como espaço textual é outra coisa que não um ato de violação). Investimento em virtualidade cobre seriamente a questão na qual a realidade do espaço constituída surge dos textos enquanto ações compartilhadas: elas não representam alguma coisa a mais, mas constituem algo novo. A questão desenvolvida no artigo de Dibbell é sobre o status ambíguo desta “alguma coisa”. (Para uma discussão adicional sobre a moldura da violação on-line em relação a diferentes tipos de feminismo on-line, veja Ward, 2000.)

Metodologias

As linhas são desenhadas entre o on-line e o off-line tanto pela metodologia quanto por teoria, políticas e cultura. Como previamente indicada, a questão originalmente endereçada às novas mídias era, ironicamente, se elas eram ou não tão situacionalmente empobrecidas quanto tornadas desapropriadas à sociabilidade; e em comparação com a interação cara a cara, como se isso fosse o padrão (puro, não-mediado), persiste. Portanto, ferramentas metodológicas para investigar os significados de alcançar a interação e o entendimento sustentado têm sido cruciais. Na medida em que se torna aparente que a interação não apenas foi sustentada, mas evidenciou uma aparentemente única e emergente cultura específica destas mídias enquanto espaços sociais, a pauta da pesquisa tornou-se extremamente dirigida aos fenômenos que eram, por definição, internos aos relacionamentos e identidades on-line.algumas dessas pesquisas foram focadas na análise da textualidade da interação (e.g. Danet, 2001, atenta para a brincadeira no uso de signos, gráficos, cronometragem, referenciais indexais e estágios nos quais ela trata literalmente como uma performance teatral). Existe um grande interesse em fenômenos como smiles e netiquette que tentam, respectivamente, compensar a ausência de dicas físicas e regular a interação em caminhos apropriados para cada situação. O contextualmente imparcial personagem de chat tem também sido violado por tratamento etnometodológico, através de muito menos que se poderia imaginar.

Porém, a aproximação esmagadoramente dominante tem sido folgadamente etnográfica ou observação participante em caráter. Isso se deve em parte significativamente ao resultado do fato de que esta literatura foi gerada tanto por acadêmicos quanto por não-acadêmicos que aprenderam sobre as novas mídias explorando-as e, portanto, não poderiam (ou não conseguiriam) separar suas análises das suas próprias participações que as geraram. Mais do que isso, entretanto, a afirmação de que os cenários de CMC podem sustentar ricas, duráveis e novas formas de socialização e convida as afirmações às comunidades que nós já tínhamos investigado e, seguindo elas intimamente, a assertiva correlata de que a etnografia é o caminho para estudar comunidades. A etnografia carrega consigo suposições sobre comunidade e espaços sociais demarcados que parecem apropriados para a Internet e, ao mesmo tempo, a estruturam ela num caminho muito particular, como um espaço social que poderia ser examinado em seu próprio, como internamente significativo e compreensível em seus termos próprios. As invocações para ambas, comunidades e levantamentos etnográficos, surgiram, de fato, muito cedo e surgiram em espaços similares (exemplos devem incluir: Reid, 1991; Bruckman e Resnick, 1993; Jones, 1995; Reid, 1995; Baym, 1996; Hamman, 1996; Kling, 1996; Agre e Schuler, 1997; Borden e Harvey, 1998; Van Dijk, 1998; Markham, 1998; Cherny, 1999; Smith e Kollock, 1999): MUDs, comunidades virtuais como a WELL e cruzadas como LambdaMOO. A etnografia significou participação em comunidades on-line, frequentemente suportadas por entrevistas on-line, visando aprender caminhos on-line de ser e de fazer: apenas com uma comunidade cara-a-cara limitada, alguém pode entender a história, a linguagem, as regras e os valores de um novo grupo ou MUD através da participação. Essa versão da etnografia on-line levou literalmente à extrapolação da “comunidade” para o “ciberespaço” e, portanto, fez duas suposições que acabaram levando a uma separação radical entre on-line e off-line: aquela sociabilidade on-line realmente teve esse tipo de coerência cultural; e mesmo aquela descrição ou explicação disso, inteiramente nos seus próprios termos, foi uma iniciativa válida e frutífera. A primeira suposição pareceu presumir o que devia ser estabelecido (coerência cultural), e a segunda aceitou uma noção muito limitada de explicação.

É bom pontuar que assim como as reivindicações para a comunidade foram um convite à etnografia, também as escolhas de etnografia poderiam presumir a existência da comunidade on-line. A etnografia como uma tradição metodológica do compromisso hermenêutico com culturas vividas está sempre casada à noção de comunidade delimitada, na qual tais culturas são cavadas. Existem interessantes ironias aqui: nas primeiras literaturas, a etnografia era intimamente ligada à reivindicação de que a vida on-line poderia ser investigada como uma cultura integral ou uma ordem social em seus próprios direitos; os últimos usos do termo têm pontuado exatamente na direção oposta, com a necessidade de contextualizar o on-line dentro do off-line (Hakken, 1999; Millere Slater, 2000; 2002). A relação entre a etnografia e a distinção entre on-line/off-line foi adicionalmente complicada pela desconstrução, dentro da antropologia, da noção de que uma comunidade poderia ser tratada como delimitada e “alheia” para o observador (Clifford e Georg, 1986; Clifford, 1998). Na medida em que a idéia de comunidade virtual desenha noções românticas de uma comunidade delimitada, ou contrasta com ela (comunidades virtuais substituem ou deslocam comunidades reais e orgânicas, cara a cara), ela adota uma versão de comunidade que não é muito corrente no estudo de comunidades off-line. Os objetos da etnografia contemporânea não são comunidades delimitadas habitadas por pessoas que são pouco separadas de “nós”. Ao contrário, elas estão distribuídas, culturas multisituadas, que são já altamente mediadas (antes de serem orgânicas, cara a cara) e em profundo contato com “outras”, e não delimitadas e imaculadas. Isso também significa que, tanto em on-line quanto em off-line, a relação entre cultura e lugar não é algo que pode ser assumido (aqui está uma cultura: agora a estude); preferivelmente, as construções complexas de relações entre cultura e lugar são centrais para o que uma etnografia deve estudar. Como seus objetivos aparecem para ser definidos em primeiro lugar?

Essas críticas têm uma implicação com duas etapas para as etnografias da vida on-line. Por um lado, elas tiram o tapete debaixo da proposição de que as comunidades da Internet existem em qualquer sentido não-problemático ou de que nós podemos saber antecipadamente o que alguma coisa é e, então, estuda-la. Por outro lado, elas abrem o campo para noções de etnografia que são muito mais apropriados para a Internet como objeto. Um exemplo claro e sofisticado é Virtual Ethnography (2000), de Chistine Hine, que tenta investigar a formação de uma rede on-line de participantes em uma questão política (a questão de Louise Woodward) enquanto uma propriedade emergente e fluída de práticas sociais. Por exemplo, ela ressalta o que poderia ser denominado um relacionamento dialético entre a Internet como cultura e como artefato cultural. Hine descreve as várias mídias da Internet (grupos de notícias, WWW) como “potencialmente diversos, mas localmente estabilizados” (2000:12). A estabilidade destas mídias enquanto artefatos culturais é parcialmente delimitada pelo fato de participantes considerarem elas como espaços sociais nos quais eles reflexivamente monitoram eles mesmos e as performances dos outros. A noção que uma pessoa tem do que é um bom website ou o que uma empresa de comunicação jornalística é depende do monitoramento do que outras pessoas estão fazendo on-line, assim como do lugar destas tecnologias na vida off-line da pessoa. O estudo dela atenta para como:

“A Internet tem rotineiramente sido empregada por seus usuários para monitorar suas próprias interpretações à luz da interpretação de outros usuários. A Internet tem sido tratada como um espaço performático no qual os usuários precisam agir apropriadamente. Assim, a tecnologia é estabelecida pelos próprios usuários. As relações sociais que se formam na Internet estabilizam a tecnologia e encorajam seus usuários a compreender isso de forma particular.” (2000:12)

No entanto, a questão de se uma etnografia puramente on-line é metodologicamente defensível é tensa. Por um lado, as bases para a rejeição dessa questão são, com freqüência, seriamente erroneamente guiadas. Por exemplo, elas freqüentemente acabam na comparação enganada e romântica com a interação cara a cara. Isso tem uma longa história dentro da etnografia: a autenticidade e mesmo o heróico encontro do etnográfico com o Outro é tratado como um relacionamento direto e não-mediado com sua bruta realidade. Ainda que seja óbvio que a presença física não é garantia de verdade, também não é que a presença mediada seja necessariamente não verdadeira – especialmente se isso é o que alguém está realmente estudando. Isso se conecta com uma segunda questão, a veracidade e verificação de reivindicações feitas on-line: informantes podem mentir sobre vários aspectos de suas identidades, de modo indetectável. Este é, obviamente, um problema mais sério em um contexto que é famoso por representar identidades, no qual distorções de identidades têm poucas conseqüências negativas para os participantes. De fato, porém, é inteiramente nebuloso e ainda não foi provado que esta é uma boa caracterização do ciberespaço em geral: isso é precisamente o que precisa ser estudado e não presumido (ver Baym, Capítulo 4). Há tanto tempo quanto isso é presumido por críticos de qualquer estudo on-line, isso pode significar a aplicação de padrões de reabilitação muito mais altos para investigar este objeto em oposição a outros. Alguém poderia questionar toda forma retribuída em uma pesquisa via correio se o remetente realmente era um homem, ou um adolescente, etc. A suposição do senso comum seria que a dúvida só surge onde existe alguma razão para mentir ou fingir. No caso de etnografias ciber, similarmente, as perguntas surgem onde poderia existir algum ponto em mentir sobre o gênero de alguém, e onde a verdade ou falsidade daquela reivindicação tem algum suporte. Um exemplo simples: se alguém está estudando como um espaço discursivo particular está organizado no ciberespaço, o ato de definir o gênero da identidade da performance deveria ser crucial, e não as identidades off-line. Por outro lado, se alguém estava tentando compreender por que certa perfomance surgiu, então os gêneros reais seriam cruciais. E o fato que é crucial para o pesquisador é ainda ser distinguido da questão de se isso é saliente para os participantes e, portanto, poderia dar espaço para dúvida. O ponto aqui não é argumentar a favor ou contra dar a alguém o benefício da dúvida, mas, simplesmente, dizer que – como em qualquer situação de pesquisa – o pesquisador tem que fazer juízo e regras nas bases da situação específica de conhecimento e pensamento.

A questão metodológica crucial sobre o relacionamento on-line/off-line, entretanto, mente em outro nível: perguntas sobre a adequação de descrições e explicações. Nós precisamos de informações off-line para que faça sentido a famosa sociabilidade on-line? E a resposta é: depende da pergunta. Uma investigação sobre a pergunta de “Como os ciberespaços se sustentam?” é, obviamente, capaz de largamente diferentes construções. Mais como a distinção entre macro- e micro-sociologia, em um extremo, poderia tocar na política econômica de acesso, habilidades diferenciais de IT e o tipo de material e poder simbólico que permite apenas algumas pessoas para participar, sob particulares condições sociais, estruturando, de fato, os tipos de comunicação e sociabilidade que acontecem. No outro extremo, podemos legitimamente frear estas perguntas a fim de descrever (mais que explicar) os mecanismos através dos quais aqueles que são capazes de participar sustentam uma sociabilidade internamente coerente, seguindo-os na ida a outras mídias, ou off-line, como se significasse relevância etnograficamente. O relacionamento entre on-line e off-line é, portanto, metodologicamente negociável em termos de critério de relevância e níveis de análise.

Finalmente, vale a pena pontuar que, etnograficamente, a distinção entre off-line e on-line não mapeia claramente a distinção entre real e virtual (como será mais discutido abaixo). Os participantes podem tratar algumas de suas atividades on-line como virtuais e outras como reais. Por exemplo, é lugar-comum usar a nova mídia que, em uma janela a pessoa pode estar contando a alguém sobre o que está acontecendo em outra janela; o antigo está de acordo com um status de realidade do qual o participante pode comentar na ação “virtual” indo ao mais recente. Mais que uma única distinção on-line/off-line ou virtual/real, o que estamos nos ocupando é mais na linha da análise estrutural de Goffman (1986).

A desconstrução e a convergência de on-line e off-line

A questão deste capítulo não são os efeitos do on-line no off-line e vice-versa. Antes, o problema é como a distinção entre os dois tem constituído tantos entendimentos a respeito da Internet e sua significância sociológica e inovação social. O mais interessante é que ambos, defensores e críticos da Internet, têm a encontrado como algo que permanece do lado de fora da realidade off-line. Esse foco apresenta pontos bons e ruins. Por um lado, focaliza a atenção nas especificidades da mídia e é uma forma de desenterrar os potenciais essenciais da nova tecnologia (iremos nos tornar pós-humanos?); por outro lado, esses ganhos também têm se tornado perdas na tentativa de compreender e explicar como os novos potenciais são realmente utilizados, o que requer atenção às continuidades entre on-line e off-line: um foco nas condições e contextos do uso da Internet.

Essa discussão implica no fato de que a virtualidade não deve ser investigada como uma propriedade da nova mídia (de qualquer mídia, na verdade), mas antes como um aperfeiçoamento social das pessoas usuárias dessa mídia. As perguntas importantes são: quais usuários da nova mídia fazem distinção entre on-line e off-line e, se eles a fazem, quando e por que, e como ocorre esse aperfeiçoamento na prática. É o surgimento da distinção que precisa ser estudado, ao invés de assumir sua existência e então estudar suas conseqüências. Um óbvio corolário com relação à virtualidade enquanto prática é que qualquer limite traçado entre off-line e on-line sempre será incerto, variável e instável. O que verdadeiro tanto historicamente como dentro de interações específicas. Iremos tomar essa contingência através de três diferentes aspectos: primeiro, as conexões entre os canais de comunicações; segundo, a relação entre meio e contexto e terceiro, as mudanças na estruturas sociais.

A distinção no uso de on-line/off-line freqüentemente assume, bizarramente, uma oposição entre, por um lado, a comunicação mediada por computadores (CMC) e face a face e interação personificada por outro. Ao mesmo tempo, há uma suposição de que a virtualidade mapeia o antigo e a “realidade” o recente. Isso é obviamente muito simples: conversações e MUDs dificilmente esgotam os contextos comunicacionais da modernidade. Na verdade, a nova mídia existe dentro de um amplo panorama que já deixa pouco clara a distinção off-line e on-line de diversas maneiras. Por exemplo, na pesquisa sobre arquivos sobre sexo de Slater, informantes que se engajaram em sexo cibernético também o fizeram com sexo pelo telefone. O que pode significar que a virtualidade não se restringe ao estar on-line, mas pode abranger, e mesmo ligar, diversas mídias (o mesmo apontamento pode ser feito por aqueles não vêem nenhuma diferença uma amizade por correspondência e uma relação cibernética). Mutuamente, as pessoas migrarem do chat da Internet para o sexo por telefone pode significar a migração do virtual para o real. A mudança para o telefone foi vista como algo que conferia à relação mais personificação e “realismo”: a voz deu autenticidade à presença do outro, mas também permitiu a verificação de algumas identidades (sim, ela é uma mulher, não parece ser americana, tem a voz de alguém com vinte e poucos anos). Finalmente, diferentes meios dentro da Internet podem ser integrados com outras mídias de formas diferentes e em diferentes relações com a distinção off-line/on-line: o uso erótico do IRC era compatível com o uso inteiramente não-sexual do ICQ (ou, mais freqüentemente, as pessoas têm contas, canais, listas, etc. separados para diferentes atividades).

Isso significa que, primeiro, a virtualidade não captura adequadamente a variedade de contextos on-line/off-line, e não os mapeia de forma estável. Segundo, mesmo o termo “on-line” pode não mapear consistentemente nem mesmo uma única tecnologia de mídia. O telefone poderia ser legitimamente visto como uma parte da experiência on-line em algumas circunstâncias, e essa experiência pode ou não pode ser considerada virtual. Essa obviedade é obviamente composta tanto pela mudança técnica quanto pela crescente assimilação da nova mídia no dia-a-dia. Por exemplo, a fusão do PDA com o telefone celular, da Internet com a televisão, ou do telefone com o computador através da voz sobre IP, podem tornar impossível o uso do termo “on-line” significantemente no mesmo sentido em que era empregado pela primeira geração de pesquisadores da Internet. Esses potenciais reais de convergência podem dar vazão a argumentos de que o significado de on-line pode ser estendido para qualquer coisa, ou – exatamente o oposto – reduzir qualquer sentido de “on-line” integrando a nova mídia a um panorama mais amplo. Esta imprecisão na distinção entre on-line e off-line causada por produtores de tecnologia reconfigurante é complementada pelas formas muitas vezes imprevisíveis como os usuários relacionam à sua vida cotidiana (assim como suas próprias tecnologias de reprogramação).

Para chegar ao segundo aspecto, podemos colocar em termos metodológicos mais amplos. A relação entre on-line e off-line algumas vezes é interpretada como a relação entre fenômeno e contexto. Dessa forma, colocar a Internet no contexto significa colocar o on-line dentro do off-line (e.g. Hakken, 1999). O que pode ser bastante redutivo: o off-line é tratado como aquele que constrói o sentido de ou explica o on-line. Novamente, isso parece parodiar tanto a etnografia como os mais contemporâneos estudos científicos (e. g. Bijker and Law, 1992; Latour, 1999; Silverstone and Hirsch, 1992; ver Miller and Slater, 2002). Colocar o on-line dentro do off-line reifica ambos: pega uma coisa chamada Internet e uma coisa chamada sociedade, ou comunidade, ou relações sociais, e, no máximo, investiga de que forma uma afeta a outra. O apontamento desenvolvido acima é a quebra do dualismo e a percepção de como uma configura a outra. Podemos usar como exemplo um lugar que parece ser um contexto evidente onde o on-line e o off-line se encontram: o cibercafé. E, mesmo assim, o cibercafé não é um simples contexto no qual a nova mídia é utilizada; é, na verdade, um campo social distinto que reconfigura a Internet de diferentes formas e, em troca, é reconfigurado por ela. Por exemplo, Wakeford (1999) examina a produção de diferentes Internets em termos de diferentes socializações estabelecidas por diferentes tipos de cibercafés, em particular com relação ao gênero. Podemos comparar a teoria com a de Miller e Slater (2002), na qual dois diferentes cibercafés estavam envolvidos na construção de relações bem diferentes entre on-line e off-line. No primeiro, a Internet era largamente considerada uma ferramenta de desenvolvimento da comunidade, que prioriza projetos e relacionamentos off-line, e se focaliza no uso instrumental de websites, programas multimídia e e-mail. No segundo, o foco estava na socialização extensiva através de sistemas de chat: as relações off-line e on-line pareciam existir em um plano sem conexão. Contextos diferentes, Internets diferentes; mas também, Internets diferentes, contextos diferentes.

Finalmente, enquanto várias formas de convergência e interpretação da mídia e contextos desestabilizam a distinção entre on-line e off-line, há também poderosas forças reguladoras operando nela. Por exemplo, muitas das medidas da política central que atualmente reformula o uso da Internet estão sendo implementadas para remover a distinção entre identidades e relacionamentos on-line e off-line. O uso comercial e político da Internet requer que os participantes on-line estejam estabelecidos como sujeitos legais com direitos e responsabilidades. Sua unidade enquanto sujeitos legais precisa ser verificada através de coisas como assinaturas eletrônicas e codificações; forma seguras de pagamento e verificação financeira (e.g. transações com cartão de crédito); definição e exigência de direitos autorais, taxação e respeito aos contratos. Em contraste com os discursos do ciberliberalismo, isso parece esclarecer que o potencial de estabelecer identidades múltiplas, móveis e fragmentadas, e de tratá-las como reais, é na verdade decidido pelos regimes reguladores off-line e, geralmente, na direção da estabilidade legal. O que significa dizer que a tendência geral é assimilar o on-line ao off-line e apagar as distinções. O status de realidade de uma relação on-line é, portanto, complexo em qualquer instância particular e sujeito a classificações institucionais/legais. O ato de oferecer seu cartão de crédito e clicar “entra” em uma transação é tão real quanto a ação face-a-face. Por outro lado, seria difícil imaginar uma corte legal premiando com pensão um parceiro sexual on-line, depois do fim da relação. Existe uma suposição profética largamente compartilhada, que pode ser auto-suficiente, de que as relações que hoje em dia são tratadas como virtuais se tornarão paulatinamente aceitas e terminarão por ser consideradas reais. Pode ser verdade, mas precisamos entender os níveis sociais específicos sobre os quais se acomodam os status legais, ontológicos e éticos dessas relações.

A organização comercial, tomando as possibilidades do comércio eletrônico, também parece se mover no sentido de integrar o on-line e o off-line. O termo “cliques e argamassa” – que denota uma empresa que tem presença tanto on-line como off-line, sites e lojas – indica que as firmas estão tendo que repensar seu relacionamento ao invés de assumir sua separação. Algumas companhias estão interessadas em traduzir sua simbologia e capital material (marca e fornecimento) para uma presença on-line significante; outros se movem na direção oposta, capitalizando em cima de uma reputação baseada na rede, fazendo o caminho de volta. Como no geral, a virtualidade é uma questão de práticas sociais, e no caso do comércio eletrônico a existência de uma distinção on-line/off-line pode muito bem ser o resultado de uma estratégia de marketing: por exemplo, existem novos bancos on-line que apagam a conexão visível com os bem estabelecidos bancos off-line a que pertencem, para atrair uma clientela diferente. Similarmente, a palavra-chave da “desintermediação” se refere ao uso das facilidades da rede para trazer consumidores diretamente aos sistemas de gerenciamento da firma: requisitando inventário, frete, serviços personalizados e por aí vai. Apesar de evocar a retórica de uma economia e relações virtuais desmaterializadas e sem atritos, é uma rede bastante material a do consumidor dentro dos sistemas de comunicação, o que elimina o mediador e reduz massivamente os custos da transação. Por outro lado, o fato de muitas regulamentações políticas e comerciais se moverem no sentido de integrar o on-line e o off-line não significa que isso simplesmente reduza o on-line às relações e identidades off-line pré-existentes.

Conclusão

A argumentação desenvolvida aqui certamente não é específica a estudos da Internet: rádio, televisão e telefone devem ser igualmente entendidos através de suas apropriações particulares. A televisão assistida por euro-americano que passa horas na frente da TV é seguramente mais virtual, por exemplo, do que a televisão assistida comunitariamente em um boteco mexicano ou em uma república de estudantes. Mais ainda, como apontado acima, há alguma evidência de que novas formas de mediação são historicamente experenciadas primeiro como “virtuais” no que elas parecem substituir ou mediar outras formas de mediação às quais têm sido historicamente estabelecidas como “reais”. Por que as pessoas parecem pensar que conversas ao telefone são mais reais do que chats na Internet? Ao mesmo tempo, a vultuosidade da noção social de virtualidade e ciberespaço em relação à Internet propriamente parece apontar para alguma coisa que seja específica da mídia. Não características intrinsecamente específicas à mídia, mas (como apontado anteriormente) uma convergência histórica e localizável geograficamente de políticas que tentam definir a Internet como um “lugar à parte”.

Parece perfeitamente válido tratar a distinção on-line/off-line como parte de uma fase de transição para usuários e pesquisadores. Foi uma maneira para ambos solucionar o problema das especificidades e potencialidades comunicativas uma série de novas mídias no processo de ver como assimila-las dentro de um amplo espectro de instituições e práticas sociais. É mais do que provável que a distinção on-line/off-line seja tratada mais como algo familiar e não tanto como compreensível dentro de dez anos. Usuários e pesquisadores já estão bem avançados no processo de desagregar a Internet na sua diversidade de tecnologias e usos, gerando um cenário da mídia no qual a virtualidade é claramente não um atributo da mídia, mas uma prática social do seu uso, entre muitos outros.

Mais ainda, como frizamos através do texto, a fuga “virtualidade” não é meramente uma questão de pauta de pesquisa, mas também das práticas evolventes dos usuários, assim como de estruturas regulamentares comerciais e legais. A verdadeira diversidade social e a mudança na maneira de distinguir on-line e off-line demonstram que existe, primeiramente, uma enorme necessidade de um estudo etnográfico que esteja atento tanto a particularidades como a um entendimento holístico das relações sociais; em segundo lugar, de uma etnografia histórica e comparativa. É consideravelmente sem sentido olhar para as correlações entre as variáveis das características da mídia e as práticas comunicativas de forma abstrata quando os participantes estão constantemente se redefinindo através do tempo e do espaço.

 

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