Monstros em fluxo: Luddismo e Tecnologias Virtuais

Iain A. Boal


Há alguns anos atrás, talvez encorajados pelo insuportável slogan de pára-choque “Mate sua televisão”, um pequeno grupo de sabotadores reuniu-se durante a hora do almoço no Sproul Plaza, no campus de Berkeley. Eles organizaram uma fila ordenada de TVs estragadas. O público havia sido convidado, assim como, marretas tinham sido atenciosamente providenciadas. O local havia se tornado em um quebra-quebra de máquinas. Ao som das implosões dos tubos de raios catódicos, esses calmos resistentes foram presos pela polícia enquanto destruíam suas próprias, já quebradas, propriedades.

Uma semana depois que os destruidores, em plena luz do dia, estraçalharam os aparelhos de TV, e não apenas três jardas distantes, um tanto rotineiro quanto instrutivo evento estava ocorrendo de forma não teatral – na verdade, sem ser notado. Na porta de trás de uma biblioteca universitária, trabalhadores do Departamento do Trabalho jogavam fora dezenas de computadores funcionais entregues à obsolescência devido a um novo modelo. A história completa da sabotagem, quando se é contra a destruição planejada do redemoinho do capitalismo, iria ser dificilmente registrada na história.

Aquele teatro de rua um tanto educado que provocou prisões e a repulsa das autoridades é um testamento com uma prolongada carga que se estende ao nosso tempo desde os luditas, aqueles artesãos ingleses que foram enforcados pela quebra – não no significado de destruição – mas de propriedade produtiva; no caso deles, os teares têxteis. Os luditas eram artesãos muito habilidosos que fizeram em pedaços os teares mecânicos que estavam tirando os postos de trabalho e os matando de fome no começo da Revolução Industrial. A resistência deles foi um movimento social que operou clandestinamente sobre a bandeira do mítico “General Ludd”. Na visão do estereótipo capitalista, em que os luditas são tidos como estúpidos, retrógrados destruidores, é impossível compreender a dinâmica da resistência e da acomodação ou explicar o fato de que os luditas, algumas vezes, quebraram velhas estruturas enquanto deixavam o novo maquinário intacto. Isso tudo dependeu das relações de produção e das condições sobre as quais os poderosos teares foram usados pelo empregador. Por exemplo, os luditas focalizaram o maquinário que estava sendo reunido em baterias para algum propósito ou sendo automatizado pela operação das crianças.

Para se ter certeza, o quebra-quebra do maquinário começou com as atrocidades de 1811 contra os donos de moinhos ingleses. Também os tecelões que quebraram as estruturas de armazenagem emprestaram seu nome à sabotagem industrial, uma forma de ação direta que é tão antiga quanto a exploração em si mesma. No termo “ludita”, repercutem ainda o grand peur das classes dominantes. Em 1812, o estado britânico tinha 24 000 soldados, e a milícia local além dos luditas eram mais que tinha Wellington para lutar contra Napoleão. Em fevereiro daquele ano, durante um debate parlamentar para a introdução do Framework Bill, em que o governo se propôs a enviar os quebradores de máquinas para serem enforcados, Lord Byron levantou-se para falar uma apaixonada e sarcástica defesa dos monstros que, “na cegueira da sua ignorância, ao invés de, se sentirem felizes com o desenvolvimento das artes tão benéficas à humanidade, compreendida com um sacrifício deles diante do desenvolvimento em mecanismo.

E. P. Thompson tem traçado a brutal transição de uma “economia moral” para a dominação da mercadoria. Os luditas foram movidos para o amanhecer dessa catástrofe contínua em que todos os recursos do mundo – humano e não ao contrário – estão especializados no mercado. Naqueles anos de revolução e contra-revolução, o discurso da política econômica, livre comércio e do laissez-faire legitimaram as vendas globais dos cercamentos dos povoamentos, forçando a liberdade dos operários entregues à nenhuma terra. Foi Thomas More, em Utopia , quem, primeiro, amargamente, descreveu os cercamentos – a ambição das pessoas pela terra e pelas ovelhas no início da capitalismo agrário na Europa. Karl Polanyi chamou essa expropriação da propriedade pública de uma revolução de ricos contra pobres – uma revolução que dizimou a população, tornou o solo em pó e os camponeses em mendigos. O movimento ludita foi um momento e um modo de resistência que Polanyi nomeou “a grande transformação” – o vasto processo histórico de cercamento que se empenha na mercantilização da terra e do trabalho. Mas, posteriormente , o cercamento adquire muitas formas: a privatização da terra pública; o confinamento da produção; o encurralamento dos desapossados em guetos, reservas, quartéis, prisões, asilos e escolas; o seqüestro de canais de radiodifusão pelas mídias monopolistas; e assim por diante.

As Técnicas de Modernização

Quando a fabricação foi incluída nas novas fábricas, essa marcante realização do velho sonho de Francis Bacon, o brilhante profeta do industrialismo, cuja fantasia tecnocrática casada com a ciência e o império – New Atlantis foi um tipo de parque P&D no século XVII – projetaram a transformação do mundo em uma sem fim cornucópia produtiva.

Após, profetas da modernidade prenunciaram um futuro de ilimitada intensificação protética dos poderes humanos, e dentre eles, o poder da comunicação – modos de amplificação, reprodução, e extensão. A cascata de invenções foi desenvolvida para conectar as metrópoles às posições estratégicas nas colônias para as forças armadas e para a inteligência comercial – rede de cabos submarinos, linhas terrestres e cadeias sem fio imperiais, entre outros. Um primeiro-ministro britânico ansiosamente anunciou ao Instituto Real Colonial em 1887: “Mais forte que os mortíferos barcos de guerra, mais forte do que seriam as fiéis legiões, mais forte do que a riqueza e o gênio da administração, mais forte até que a inabalável justiça do reinado da rainha Vitória, são os sobras de papel que são conduzidas pela infinidade das águas do mar, e dois ou três pequenos fios que conectam as partes dispersas do seu reino”. A história das tecnologias da informação, no entanto, como Brian Winston mostra em Misunderstanding Media , tem sido o primeiro desenvolvimento gradual em anticataclísmico em resposta a uma certas relações sociais persistentes: “As mesmas autoridades e instituições, o mesmo capital, o mesmo esforço de pesquisa que criam o mundo de hoje estão também tentando criar o mundo de amanhã.”

A infraestrutura do império e o novo trilho, estrada, e as eletromecânicas ligações do capitalismo industrial junto com os brutais deslocamentos e reconexões forjadas pela urbanização e pela migração de trabalhadores causou, certamente, profundas mudanças em concepções de tempo e espaço. Os críticos americanos de fin-de-siècle procuravam reviver a visão de uma comunidade perdida pelos novos meios, virtuais e segmentados - o telégrafo e telefone. A “vila global” de Marshall McLuhan é só um brilho tardio nesse tropo de comunicações-como-comunidade. Na verdade, ele retirou essa idéia do seu mentor canadense, Harold Innis, quem uma vez estava desenhando a nação de rádio de Joseph Goebbels com um significado técnico moderno de “retribalização” alemã. Foi o uso da propaganda Nazi através da radiodifusão que conduziu Bertold Brecht a sua experiência na aplicação radical do rádio.

Redução Cibernética

As mais recentes técnicas de informação – entre elas a holografia, a xerografia, os satélites, o videotape, os videofones e as fibras ópticas – são freqüentemente ditas como técnicas que alcançaram a massa crítica como se uma profunda transformação social estivesse iminente. Essa segunda rodada por um novo mundo sob a bandeira da cibernética, que emergiu como uma teoria depois da Segunda Guerra Mundial – um conflito 24 horas por dia mecanizado e coordenado por controle remoto – em que os humanos eram analisados como “fatores” no feedback dos circuitos de comunicação entre humano e maquinário.

Após a guerra, a mistura de otimismo tecnológico e do maniqueísmo anti-comunista foi incorporado na figura do exilado político, o matemático húngaro, John von Neumann. Ele desenhou a arquitetura para o propósito geral do computador digital; ele propôs a detonação das armas nucleares no Atlântico para melhorar o clima africano; para modelar o compromisso estratégico, ele desenvolveu a lógica da teoria do jogo, cujas premissas Gregory Bateson descreve como “em uma direção paranóica e odiosa”.

Havia também um lado ruim para a síntese do século americano, expresso em filme e na cultura popular. Na sombra de Sputnik , Hollywood faz surgir um bestiário de aliens, ciborgues, dinossauros, insetos sociais e robôs. A tensão do pessimismo tecnológico tornou-se apocalíptica depois que os Estados Unidos foram derrotados no Vietnã e da crise de capitais nos anos 70. Mas na última década, o computador – do qual o precursor, o programável tear Jacquard , perseguido pelo luditas – tem permitido que a burguesia se apaixone novamente pelo futuro. Desta vez, a sublime eletrônica prevista pelos hiperbólicos da revolução da informação está enunciada sob um sinal de “virtualidade”.

O significado de “o virtual” é obscuro. E qual sua relação com “o real”? É algum tipo de imitação? Uma aproximação? Uma cópia? A antítese do real? Este lugar é habitado, para se falar, do seu próprio espaço, da sua própria superfície? (Por um longo tempo, isso tem sido um termo técnico em Física, e na História da Arte, em discussões de perspectiva). No mesmo campo semântico, há uma quantidade de noções que se relacionam – real, contrafatual, especular, replicado, simulado, artificial – cujas conexões, com respeito ao sensorium humano e recepção cultural, estão à espera de seus analistas.

A nova virtualidade, qual seja seu papel na construção do real, é, de alguma maneira, considerada uma função da fiação elétrica do computador para as tecnologias de vídeo na rede global de telecomunicações. A emergência do vídeo por si só foi acompanhada por similares previsões das distintas relações da nova cultura de relacionamentos, algumas das quais – a produção independente, a exibição programada – têm sido significativamente retomadas. Ainda, a história de uma bateria de técnicas de vídeo – o replay – é exemplo do caminho do qual qualquer inovação tecnológica se insere no predominante social e nas condições institucionais. Antes do videotape, todos os programas de televisão eram ao vivo. O único método de gravação era o cinescópio – um filme fotografado diretamente do tubo de televisão durante a transmissão ao vivo. O resultado foi uma notável qualidade inferior em relação à original. No caso do videotape, do qual o uso industrial retorna a 1956, quando o primeiro, caríssimo, gravador de vídeo Ampex chegou ao mercado, a cópia ficou rapidamente indistinguível tecnicamente da cobertura de programas ao vivo – agora somente uma legenda alerta a audiência de que o que eles estão vendo é uma gravação. Alguém chamaria esse resultado de “virtualmente real”.

O desenvolvimento da alta fidelidade do videotape provou-se previsivelmente muito atrativa para os donos e produtores de televisão. Os programas de televisão poderiam agora ser reproduzidos em uma satisfatória alta qualidade e vendidos como uma mercadoria. Em segundo lugar, a tecnologia do vídeo valeu-se de artifícios da complicação e da imprevisibilidade inerentes à transmissão em tempo real. Transmissões ao vivo sempre ameaçam subverter o artificial agradável fluxo da realidade televisiva – um fluxo que se torna naturalizado e em um senso sem emendas, mas ao mesmo tempo rigidamente segmentado em programas, de uma maneira, que espelhos em 24 horas por dia de linha de produção. “Bloopers” podem agora ser domesticados, até mesmo, embalados e vendidos como produtos. Em terceiro lugar, a pré-gravação de programas para subseqüente edição antes da transmissão representa um enorme aumento de controle da mídia sobre o seu conteúdo. De fato, a edição de vídeo aproxima-se do poder tradicional de um diretor de filme na construção de eventos. As possibilidades de revisão, seleção e tape-delay têm feito com que o gravador de vídeo seja um dos mais importantes instrumentos de gatekeepers de notícias e da história oficial, e não somente, ou principalmente, uma arma do povo.

Embora o replay seja associado ao esporte, este não começou com o esporte. O seu primeiro histórico uso ocorreu quando as câmeras da NBC se conectaram a um gravador de vídeo Ampex, quando Jack Ruby assasinou Lee Harvey Oswald. Uma hora depois, quase 80% dos aparelhos de televisão americanos estavam ligados, mostrando um contínuo replay do assassinato. Isso impressionou não apenas o público que assistiu, assim como os executivos de TV. Apenas algumas semanas depois – ano novo de 1964 – o replay foi pela primeira vez usado em um evento esportivo, o jogo de futebol americano do exército da marinha.

Mas nenhuma lógica da manhã de segunda pode contar com o fato de que três rodadas intermináveis de replays de imagens de vídeo que se tornaram ícones de sua época envolveram morte e uma quase-fatal violência – o assassinato de Oswald, a explosão da Challenger e o assalto à Rodney King. (A morte de Kennedy, sem dúvida, foi repetida mais que todas elas, mas não foi gravada em fita naquele momento, pois foi somente transferida de um filme Super-8 para uma fita). A reprodução mecânica digital destes eventos destilaram pesadelos nacionais. As cadeias de emissoras viram isso como um outro pesadelo de qualidade – a repetição. A repetição do loop do vídeo, no momento da morte ou quase-morte diversas vezes não tinha propósito funcional nem analítico. A repetição compulsiva dá a ilusão do controle sobre o reprimido, também confortavelmente se emaranham com os propósitos daqueles que procuram saturar a audiência com seus produtos e símbolos. Claro, há uma curiosidade inicial sobre “o que realmente aconteceu” – e a fascinação com imagens da morte “real”, ao invés da diária simulação de carnificina em filme e em televisão. No caso de um desastre de avião, a incessante repetição do momento de desintegração move-se sobre a curiosidade e análise funcional do ponto onde os reflexos comerciais dos novos produtores, objetivando pelo máximo de despertar sobre o potente símbolo da tecnofilia chauvinística, convergida com a profunda ansiedade coletiva, na verdade, com a paranóia.

Paranóia e Virtualidade

Os efeitos da ligação do vídeo com as tecnologias digitais não estão claros. Se nós rejeitarmos as fantasias dos neocibernéticos, nós devemos, da mesma maneira, rejeitar os vendedores do apocalipse, cujas visões das mídias totalitárias estão enraizadas em um conceito essencialmente teológico de onipotência. Entretanto, o caso do replay sugere uma importante questão. Há emergentes propriedades desta nova constelação de máquinas digitais e técnicas de imaginação que sugerem uma relação causal entre seus tipos de virtualidade e a produção de paranóia?

Virtualidade, em outras formas, não é nova. Não há nada novo sobre a produção de paranóia, dadas sociedades violentamente dividas por gênero, raça e classe. E os melhores paranóicos não precisam de maquinário, eles fazem tudo dentro de suas mentes. Mas a paranóia vem em diferentes sabores. O que significa que há uma paranóia de e com poder – e há uma paranóia contra o poder.

Então nós não estamos propondo uma total novidade de experiência nestes novos espaços virtuais. Além disso, aqueles tecnologistas digitais de Hollywood e engenheiros virtuais da Sony deveriam ter nos trazido dinossauros que somente parecem um paradoxo. A tela do cinema e do vídeo – porque eles constituem o mito do espaço da modernidade – vão sempre produzer monstros totêmicos que vêm de longo espaço, ou lagartos sexuais enormes e seguramente extintos com corpo que vêm e vai de um tempo longe, ambos com os modos e os pedidos da audiência e o desejo do seu aparato para se fazer mítico.

Alguém pode sugerir uma continuidade com a experiência do camponês na luminosidade manchada da catedral: grotescas figuras de consolo e enxofre. O que é extraordinário agora, no entanto, é a descontinuidade qualitativa introduzida pela miniatura, personalizada, imagem em movimento atrelada a um microchip. Uma tela de vídeo quebra a distância – em favor de uma íntima relação virtual de um-para-um. Os ciborgues, na tela virtual, são então uma alegoria do medo da morte social e da incorporação com a máquina. Até os mais habilidosos adolescentes não podem dominar este programa. Os monstros se amontoaram, em uma paródia pós-fordista de aumento de velocidade. O corpo está totalmente no virtual, mas não mais no comando. Nenhum excesso de habilidade em movimentar rápido um mouse irá salvar as crianças.

Então o primeiro efeito candidato das tecnologias virtuais é a produção dos novos visualizadores de monstros, que estão incompletos, deficientes, esmagados por dentro . Seu corolário é uma política de ressentimento e um ressentimento de política. A operação real virtual abre uma fenda no assunto e faz isso incompleto. A paranóia, então, floresce no ápice de uma plenitude sempre sob uma ameaça total – solo fértil para o fascismo, e não é necessário explicar a fúria dos tecelões invocando tanto os manipuladores acima da rixa ou do modelo das mídias capitalistas de Noam Chomsky (e o seu inverso, o “modelo da informação”).

O modelo de informação é, em qualquer caso, falso, porque isto torna-se paralelo à visão de linguagem de Ferdinand de Saussure, em que dois pólos do circuito de comunicação – emissor e receptor – têm o mesmo poder. Mensagens, nesse esquema, fluem entre iguais. Isso é a pressuposição ideológica que enfraquece a Linguística e o campo dos estudos da Comunicação. Além disso, os receptores das mensagens e imagens não estão em um senso crucial e independente da mídia. A televisão, por exemplo, produz um corpo televisual – o maníaco televisivo . Diferentes tecnologias midiáticas, em geral, constróem diferentes sujeitos. O computador subordinado à lógica administrativa da ciência, do marketing, à política de publicidade ou à epidemiologia constitui uma “população” completamente removida das tradicionais noções sobre grupos humanos em um nexo de comunidade, família e memória social. Toda a interioridade e o abismo psicológico estão tanto abolidos ou reaparecerão sobre a forma do “irracional” e do “subjetivo”. Uma população, nesse senso “virtual”, não é um grupo, uma multidão, pessoas, povo, proletariado, nação ou cidadão dos seus discursos; seu membro é definido por uma operação booleana e segmentado arbitrariamente por idade, pela renda ou pelos hábitos de compra ou grupo sangüíneo, ou CEP, ou alguma intersecção de variáveis.

Resistência e paranóia crítica

Na verdade, um espaço virtual benigno coloca-se à espera – a humana, imaginação crítica, onde você pode achar o que você não é, e no seu próprio tempo. Além do mais, a paranóia contra o poder, além do mais, é recomendada para a resistência aos cercados da informação , ligados e coordenados pelos satélites, fibras ópticas, e pelas técnicas de silicone – mas a resistência irá se sentir como E. P. Thompson disse, como “assobiar dentro de um tufão”.

A repulsa à televisão, a truculência com o maquinário inteligente, a sabotagem da maquinaria genocida – estes são, certamente, gestos de vitalidade, mas de jeito nenhum uma soma ao movimento ludita. De qualquer maneira, para milhares do outro lado do globo, não há telefone particular, fax ou TV, sem mencionar um computador ou um automóvel.

E isso nunca existirá. Isso não é uma questão de progresso ou de modernidade atrasada. Não há nada atrasado ou arcaico sobre as ruínas desertas da Irlanda, sobre a matança “étnica”, nos campos da Ruanda, sobre as encostas erodidas dos Chiapas, sobre os barrios e favelas sem serviços básicos úteis. As fotos do Haiti revelam uma das faces da modernidade, assim como, o comprimento em pés da parte centro-sul de Los Angeles. A narrativa predominante , cujas palavras-chave são “progresso”, “modernidade” e “desenvolvimento”, traz a lembrança seus extintos dinossauros, assim como, os luditas, e os seus vivos celacantinos [1], nomeados como resíduos dos camponeses e uma grande quantidade de exóticas enclaves, “tribos” que constituem nossos antepassados contemporâneos. Isto é a metafísica da modernidade, seja em sua forma clássica capitalista seja na forma, até recentemente, do seu irmão Marx.

Aqueles que criticam o uso de certas tecnologias modernas e que ainda fogem da alcunha de “ludita” também são cúmplices da lógica do progresso, amedrontados sobre serem chamados de técnofobos ou, finalmente, perdedores juntamente com os camponeses e com as tribos condenadas. Mas é uma mentira que a ação direta contra os instrumentos de produção tem sempre sido desesperançosa ou que isso, de alguma maneira, envolve ser “anti-tecnológico”, como isso fosse uma possível posição, em geral . Os moinhos móveis elizabethianos foram com sucesso suprimidos por gerações pela legislação que acompanhou as agitações das camadas populares. O japonês, por um tempo, desistiu da arma. O capitão Swing e os agricultores luditas que estraçalharam as debulhadoras, em 1830, conseguiram para eles e para as suas crianças uma suspensão temporária de uma metade de século. O exército ludita de reformadores não tinha líderes e sua máquina-de-quebrar não usavam violência – o que significa que eles entendiam a radical distinção entre vida e propriedade.

Novas condições de trabalho vomitam novos locais de resistência – a produção de gargalos de garrafas tem tido sempre pontos fracos e agora a invenção do “just-in-time” [2] cria as suas próprias vulnerabilidades. A maioria das máquinas se deixa abusar facilmente; os computadores, como um engenheiro alemão observou, “não gostam de chá, café, coca-cola ou pó de ferro”. No lado do consumo, boicotes de massa de produtos selecionados põem medo em equipes de venda e de marketing. Desplugar e tirar fios podem, sem dúvida, ser necessárias táticas, mas tudo depende do contexto. Pegamos a máquina de Xerox, por exemplo: para aqueles que trabalham corajosamente sobre os regimes stalinistas para produzir e distribuir samizdat [3] quando todas máquinas-de-escrever tinham que ser registradas pela polícia e toda máquina de copiar tinha um guarda armado ao lado, dissidentes de todo o Sul estão desesperadamente baixo significado de reprodução . Por outro lado, para críticos na academia do Norte que sofrem com o excesso de informação, virá um tempo quando xerocar tem que parar.

Não há razão para adotar a filosofia funcionalista da tecnologia que fixa a priori uma neutralidade para artefatos e sistemas técnicos – por meio do qual, máquinas somente podem ter bons e maus usos. Em algumas coisas, é necessário insistir, estão sem vícios de qualificação com respeito ao florescer da vida: tecnologia plutônica, para um, e, para outro, se Barry Commoners está certo, todo o complexo petroquímico global, que ele diz que deve parar antes que envenene a vida na terra. Felizmente, produtos baseados em petróleo, especialmente, plásticos são, em sua maioria, substituíveis, o que significa que, eles têm sido adotados para substituir materiais como cerâmica, madeira e metal.

Muitos artefatos não são tão duros como o plutônio. Todos, entretanto , tem uma tendência valorativa; o que significa que eles conduzem para certas formas de vida e para a consciência, e contra outras. Artefatos são ideologia congelada. O computador, como foi arquitetado, incorpora a estrutura do comando-e-controle de uma sociedade hierárquica. O motor de combustão interna é o preferido bloco de alimentação de uma cultura individualizada; uma vez produzida, vem para dominar e reproduzir a consciência da época, tipificada em uma auto-estrada engarrafada – “todos juntos sozinhos”.

A inércia massiva na infra-estrutura automobilística irá condicionar todas as nossas vidas de forma indefinida – os subúrbios, as cidades fronteiriças, os shoppings, os guetos, as muradas, a Sexta Frota. Isso não é para dizer que as tecnologias são condição suficiente para definir ou impedir o futuro. Isso é salutar para notar que o grande projeto anterior de infra-estrutura na história dos Estados Unidos foi o sistema ferroviário – que chegou a seu ápice ao longo do da onda de expansão do capital no século XIX – que se encontra mais ou menos abandonado, todos dentro de dois tempos de vida. Não há nada, finalmente, autodeterminante sobre tecnologia; contra o slogan absurdo que se há alguma coisa possa ser feita, isso será, “inovação” está continuamente sendo bloqueada pela evasão de capitais, pela política estatal, e guerras de patentes de corporações.

A tendência valorativa da tecnologia não é algo fácil de se estimar e, de qualquer maneira, não há nunca uma conclusão com respeito à conseqüência ou recepção. Não admira que, Theodor Adorno e Walter Benjamin puderam tão fundamentalmente discordar sobre o revolucionário potencial popular do cinema. Acima de tudo, a tendência valorativa não pode simplesmente ser “extraído” o artefato por si mesmo.

Os Amish têm algumas lições com os luditas nesse assunto, sendo inteligentes, cuidadosos sobre a ameaça posta pelas novas tecnologias com o caráter e com os ritmos das suas pequenas comunidades face-a-face. O lar da Velha Ordem Amish não desfruta de rede elétrica, nem rádio, televisão e, desde 1909, nem telefone. Existem, no entanto, telefones comunitários, localizados em umas pequenas “cabanas” de madeira a uma distância das habitações; este telefone tem números que não constam em listas e geralmente sem campainha para as chamadas recebidas. Os Amish não condenaram o instrumento por si só; a acomodação sugere que a questão principal é a relação do telefone com o espaço doméstico, com as fronteiras entre as comunidades, e, muito provavelmente, com hierarquias de gênero e idade.

Claro, nós negamos a rationale teocrática dos Amish por uma apropriação crítica da tecnologia, mas nós também rejeitamos os princípios da resistência baseados no humanismo, quando isso falsamente supõe que a relação do tecnológico com o humano é essencialmente externo. A natureza humana não é autônoma com respeito à tecnologia. A fantasia da vingança nas mãos de uma criatura monstruosa da ciência de Mary Shelley – nesse caso, o resultado dos esforços do prometeico Doutor Frankenstein para a passagem para o feminino totalmente, ao galvanizar a vida em uma capela mortuária – contém uma verdade que Engels insistiu: o papel constitutivo dos nossos artefatos e das produções materiais. Nós fazemos a nós mesmos como fazemos o mundo.

Se isto é correto, e desde que as novas tecnologias da vida virtual estão preparadas para compor o velho sistema de dominação com novas colonizações, então, a tentativa de E. P. Thompson de resgatar os luditas de uma enorme condescendência de posteridade parece não ser um caso amoroso. E não é um fácil dever também. Um editorial do jornal Hearst do dia 10 de dezembro de 1994 rapsodiou: “O ciberespaço tem um potencial de democratizar a informação em maneiras inimagináveis em apenas uma década, só para continuar: “Apesar da fútil resistência dos “raivosos” luditas, a tecnologia do computador está para ficar e as canetas de penas estão fora”. Um jornalista enviado para o Sproul Plaza para cobrir o trigésimo encontro do Free Speech Movement citou a ação incendiária de Mario Savio contra a visão tecnocrata da universidade como uma reunião de fábrica pelo capital humano: “Virá um tempo em que a operação das máquinas se transformará em algo odioso, que fará você tão doente do coração, que você não pode tomar parte, você não pode nem passivelmente tomar parte. E você tem que colocar seus corpos sobre os equipamentos, sobre as rodas, sobre as alavancas, sobre todos os aparatos. E você tem que fazer isso parar”. (mas o escritor não pode se abster de um típico brilho condescendente: ele nos informa que Savio “entoa em uma pura indignação ludita”. Na verdade.)

Não somente – nós propomos a mais grande generalização de uma crítica ludita da máquina, permitindo uma estratégia, até mesmo uma mítica conexão entre as perdidas lutas dos tecelões dos teares manuais contra a disciplina da fábrica, a fome e as contemporâneas formas de resistência – contra o zoneamento que desnatura a vida nas cidades, contra a mecanização do nascimento, vigilância racista e a criminalização da pobreza, contra a jaula de ferro da burocracia, contra as fronteiras de estado e identidades, contra a programação do selvagem, que é o nosso mundo, e nós mesmos, que devem ser feitos nas texturas da imaginação de William Blake.

Referências

A clássica passagem “from below” dos históricos luditas é de The Making of the English Working Class (London: Vixtor Gollancz 1963; 2d ed. com novo pós-escrito, Harmondsworth: Penguin 1968) de E. P. Thompson. David Noble levou adiante a teorização do Ludismo como um princípio – instigado pela análise da quebra de máquinas de Geoffrey Sea's Mumfordian – no ensaio dividido em três partes, “Present Tense Technology,” em democracy (Spring/Summer/Fall 1983), desenvolvido em Progress Without People (Chicago: Charless Kerr 1994). Em comunicações, em particular, ver Kevin Robins e Frank Webster, Information Technologies : A Luddite Analysis (Norwood, New Jersey: Ablex 1986). Uma história crítica e sociotécnica das tecnologias da informação está em Misunderstanding Media (Cambridge: Cambridge University Press 1986),de Brian Winston. Minhas observações sobre o império e comércio foram citações de Daniel R. Headrick em The Tentacles of Progress (Oxford: Oxfors University Press 1988). Meus pensamentos em cibernética têm tomado forma pelo trabalho de Steve Heims, cujo livro John von Neumann and Norbert Wiener: From Mathmatics to the Tecnologies of Life and Death (Cambridge: MIT Press 1980) e biografia coletiva de The Cybernetics Group (Cambridge: MIT Press 1991) são modelos de como reconstruir a história da ciência com uma apaixonada objetividade. O trabalho de Donna Haraway desafia as críticas luditas-humanistas da assimilação do humano e do anti-real dos ciber-teoristas. Paul Edwards fez uma boa análise dos espaços virtuais na Guerra Fria em The Closed World :Computers and the Politics of Discourse in Cold War America (Cambridge: MIT Press 1995). As especulações em virtualidade foram lembranças das conversações com Minoo Moallen e Philip Turetzky, e também com T. J. Clark e Whitney Davis no contexto de perspectivismo na História da Arte. A discussão do replay e do vídeo é emprestada do meu ensaio, Propaganda Analisys Review (Summer 1986), que foi inspirado em Tube of Plenty, de Erik Barnouw (New York: Oxford University Press 1977); ver também o ensaio de Ben Keen “Play It Again, Sony” in Science Culture 1 (1987). Minha desaprovação à linguística positivista e ao informacionismo é movimento para exprimir idéias em estética por Philip Turetzky e para o antropologista Charles Briggs, cuja crítica sobre o fetiche da “referência” na Lingüística do século XX pode ser encontrada em Learning How to Ask (Cambridge: Cambridge University Press 1986) e no seu próximo livro com Richard Bauman. Os breves comentários nas maneiras estatísticas de usos do computador que eliminam a interioridade e o aprofundamento na produção das “populações” virtuais condensam meu argumento feito em “The Rhetoric of Risk,” PsychoCulture 1 (1995). Na questão da cultura e das telecomunicações, em geral, dois livros essenciais são de Armand Mattelart, Mapping World Communication (Minneapolis: University of Minnesota Press 1994) e de Jesus Martin-Barbero, Communication, Culture, and Hegemony (London: Sage 1993). A apropriação da tecnologia pelos Amish é discutida no próximo livro sobre tecnologia e democracia de Richard Sclove (New York: Guilford 1995), em “The Amish and the Telephone: Resistance and Reconstruction,” de Diane Zimmerman Umble, e em Consuming Technologies : Media and Information in Domestic Spaces (London: Routledge 1992) de Roger Silverstone e Eric Hirsch.

 

NOTAS DO TRADUTOR


1Peixe da ordem Coelacanthini.
2O Just in Time pode ser chamado de Produção Enxuta, ou ainda, Ohnoísmo. Esse sistema consagrou o Japão como a maior potência econômica mundial dos anos 70 e 80, pois a implementação desse sistema significa a produção de bens e serviços exatamente no momento em que são necessários – não antes para que não se transformem em estoque e não depois para que seus clientes tenham que esperar. A primeira empresa no mundo a aplicar as idéias básicas do Just in Time foi a Toyota Motor Company , na segunda metade da década de 50.
3O ano de 1966 também trouxe outro marco: o surgimento do termo “samizdat”, acrônimo que lembrava deliberadamente “Gosizdat”, ou “Editora Estatal”; “Samizdat” significa “auto-editora” e refere-se figurativamente à imprensa clandestina. O conceito não era novo. Na Rússia, a “samizdat” era tão antiga quanto a escrita. Mas depois de 1966, a “samizdat” virou passatempo nacional.

 

BOAL, Iain A. In A Flow of Monsters: Luddism and Virtual Tecnologies. Traduzido por Adriana Sugimoto








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